A propósito de ti

Ler

Sou feliz: acabámos de comprar casa, mudámos de cidade, agora temos um carro confortável e nenhum de nós está desempregado, aliás, ambos até temos trabalhos novos.

Sou feliz: preferimos as mesmas séries, nunca discutimos por causa do comando e aceitas todas as minhas sugestões de filmes para ver à noite, mesmo quando se provam um fiasco. Depois, quando nos sentamos a ler, não te chateias (muito) quando não te deixo sossegada na leitura porque estou sempre a comentar contigo frases que estou a ler.

Sou feliz: uma vez por mês vamos à aldeia dos meus pais. De manhã ficamos na ronha, à tarde vamos passear até ao rio e à noite sentamo-nos à lareira. Nas últimas vezes até tivemos direito a fogueira lá fora, sob um céu estrelado. Regressamos a casa com o porta-bagagens cheio de hortaliça, fruta e compotas, tudo biológico, como tem de ser.

Sou feliz: aos domingos o teu pai faz-nos uma visita, ficas a conversar com ele na cozinha e eu passeio a mia na marginal. Solto-a para ela brincar com a nooki e a violeta, e eu a matutar o que cozinhaste desta vez (como eu adoro as tuas maravilhosas invenções culinárias). Às segundas, quartas e sextas és tu que levas a mia a fazer chichi, faça chuva ou faça sol; às terças e quintas é a minha vez; aos fins de semana vamos quase sempre juntos, como eu gosto.

Sou feliz: vejo-te sair de casa para ires ao mercado (à praça, como tu dizes) comprar ovos caseiros e mais verduras. Não percebo como demoras tanto, mas tenho a certeza de que não te foste embora visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um barco para te levar a ver o pôr do sol no tejo, naquele horizonte infinito como a nossa cumplicidade, como a minha alegria em saber-te a meu lado.

[Crónica inspirada no texto homónimo de António Lobo Antunes]

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