A Voz

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Há anos que a oiço, mas não posso dizer que a conheça. Dias há que pareço compreendê-la, concordo com tudo o que me diz, parece-se mesmo comigo. Noutros é-me totalmente estranha, não concordo com o que me sussurra, é a antítese de quem sou.

É a Voz.

Passo tempos sem saber dela. A Voz como que hiberna nas estações mais felizes: convívios, jantares românticos, brincadeiras, férias. Noutros períodos não me dá descanso. O eco ensurdecedor da Voz atordoa-me e impede-me de agir. É que a Voz é muito crítica. Demasiado crítica.

É naqueles momentos que implicam ser julgado pelos outros que a Voz tem maior influência em mim, como falar em público, dar uma entrevista ou… escrever este texto. Em dias bons, quando enfrento a némesis da escrita – a folha do word em branco –, começo a teclar, titubeante, procurando as palavras certas, mas depois consigo avançar, com alguma confiança, pelos caminhos da produtividade, até a um saboroso “Guardar” final.

Mas nos dias em que a Voz teima em estar ativa, o seu poder é arrasador: “Vais mesmo escrever sobre isso? Mas isso interessa a alguém? Como assim histórias de viagem? Não passas dum exibicionista a expor as tuas viagens banais. Índias, Amazónias, Perus, tretas, quem não foi já a esses sítios? Olha à tua volta, para os viajantes a sério, esses sim, têm histórias para contar. Porventura atravessaste a Ásia de bicicleta? Foste de mota até à Cidade do Cabo? Então, cala-te! Nem te atrevas a dar entrevistas, não tens nada para contar. Crónicas sobre livros? Não fales do que não sabes, não te armes em intelectual. Sobre a tua infância? Sim, viveste numa ilha e ias de barco para a escola, e depois? Também milhões de outras pessoas no mundo. Sobre a tua rotina? Isso é relevante em que medida? És patético…”

A Voz pode ser cruel, conhece-me bem e ataca-me onde mais me dói. Nesses momentos a Voz asfixia-me a minha outra voz, a verdadeira, a que me permite avançar. O resultado desta asfixia é a conhecida procrastinação – o nada, a página em branco.

A Voz é a encarnação do medo: medo da exposição, de concretizar a ideia, de falhar, de ser julgado, de ser rejeitado. A Voz trabalha para o medo e o medo para a Voz. Ela nunca desiste. Tenta-me silenciar dia após dia com os suas estratagemas ardilosos de supostos medos inultrapassáveis.

Mas há dias bons. Fui aprendendo a viver com a Voz, a silenciá-la, a libertar-me do constrangimento do seu sufoco. Aprendi a aceitar as minhas fragilidades e a seguir em frente.

Escrever não é uma corrida. Ao contrário do que a Voz me diz, não preciso de olhar pelo canto do olho para o que os outros fazem e comparar-me com eles. “Não é preciso brilhar”, como escreveu Virginia Woolf, “não é preciso ser outra pessoa além de si mesmo.”

A satisfação da escrita reside no próprio ato de escrever, na exteriorização do que sentimos,  assistir ao nosso Ser fugir da cave do vazio e ver a luz do dia. A nossa identidade reside na memória, no seu registo. O ato de escrever, mesmo que sobre aparente banalidades, pode sempre chegar a alguém, e quem sabe esse alguém possa sentir-se menos só, como eu ao tentar chegar-lhe.

“Não preciso brilhar”, respondo à Voz, “por isso decido avançar”. Sei que a Voz estará sempre à espreita. Como em qualquer relação, há dias bons e dias maus. Nos dias bons, como hoje, triunfo sobre a folha em branco e escrevo palavras como estas que partilho convosco. Nos dias maus, bom, nos dias maus voltarei a este texto e lembrar-me-ei que amanhã reserva-me um dos dias bons.

[Fotografia: Sortelha, 2018]

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