Anatólia Oriental: histórias de tragédia e beleza

Anatólia Oriental: é o nome oficial da província onde se situa Kars, mas durante séculos esta terra pertenceu aos arménios. Este é o território primitivo da Arménia, o berço da sua civilização, onde se situavam as suas principais cidades, templos e fortificações. Aliás, Kars chegou a ser, no século X, a capital do Reino da Arménia.

Aquela região, agora sob domínio turco, a que cheguei de comboio num dia frio de verão, é uma das mais conflituosas do mundo. Foi ali o epicentro do genocídio arménio (terão sido mortos quase um milhão de arménios), perpetrado pelo império otomano em 1915. O assunto é ainda hoje motivo de divisão e deve ser tratado com pinças na Turquia. O país nunca reconheceu o genocídio e poucos são os turcos que o admitem. É uma questão delicada de se abordar. Faruk (nome fictício), o meu anfitrião em Kars, falou-me do trágico episódio com um tom de voz baixo, quase sussurrante, como se alguém o pudesse estar a ouvir, mesmo na privacidade da sua sala.

“As coisas em Kars são diferentes do resto da Turquia. Esta zona era cristã, dos arménios. Alguns ainda cá vivem, mas muito poucos. No resto da Turquia a maioria das pessoas nega o genocídio ou prefere nem pensar no assunto, mas em Kars a memória ainda perdura. Os arménios que cá ficaram têm muitas histórias para contar sobre o genocídio.” Os turcos rejeitam o episódio, mas a restante população de Kars reconhecem-no. Os curdos, por exemplo. Faruk conta-me que, das 80 mil pessoas que vivem em Kars, cerca de 15 mil são de etnia curda. “Esta música que se ouve lá fora é de um casamento curdo. Vai ser festa a noite toda!”

Filho de mãe turca e pai curdo, Faruk é casado com uma mulher também curda. Perguntei-lhe se isso acarretava algum problema. “O governo proíbe muita coisa, mas em Kars os turcos e os curdos podem casar-se entre si. Os nossos filhos é que não podem aprender curdo na escola. É proibido. Mas a minha mulher ensina curdo à nossa filha aqui em casa. Ela sabe falar bem as duas línguas.”

Apesar da sua localização remota, Kars é um entroncamento de etnias: turcos, curdos, arménios, georgianos, iranianos e, mais recentemente, povos de paragens mais longínquas: refugiados afegãos e sírios que fogem da guerra ou procuram melhores condições de vida. Faruk vive de perto esta realidade. Trabalha como engenheiro civil num campo de refugiados em Igdir, uma cidade turca perto da fronteira com o Irão. Milhares de refugiados têm cruzado aquela fronteira nos últimos anos, de tal forma que a União Europeia se viu obrigada a pagar à Turquia para que assuma trave a entrada de migrantes entre a Ásia e a Europa.

“Os sírios e os afegãos são muito diferentes dos turcos. Apesar de tudo, nós turcos, somos um povo moderado. Muitos deles são fundamentalistas, radicais. Detestam o Ocidente mas, paradoxalmente, o seu único objetivo é chegarem à Europa. Não tem sentido! Porque não vão antes para países mais parecidos com os seus, como a Arábia, os Emirados, ou mesmo o Uzbequistão ou o Tajiquistão? Não tem lógica…”

Faruk falava, ou antes, sussurrava, com um visível cansaço – físico e mental, assumi. Contou-me que todos os dias faz 150 quilómetros até Igdir e volta – um trajeto de duas horas para cada lado. Reconheceu que era extenuante, mas rapidamente animou-se e mudou subitamente de tom: “Mas gosto de viver em Kars! É um cidade muito segura. Até deixo a porta destrancada. Podes sair e entrar à vontade. É também muito bonita. Sobretudo a zona de Ani. Tens de lá ir.”

Segui a sugestão de Faruk. Primeiro caminhei algumas horas em Kars, depois apanhei um autocarro para Ani, a uma hora de distância.

A 1800 metros de altitude, Kars é uma das cidades mais frias da Turquia. No inverno são frequentes os grandes nevões. Curiosamente kar significa neve em turco, mas o nome da localidade deverá ter origem na palavra karsaks, o nome de uma tribo do Cáucaso de que os habitantes de Kars descenderão. Kar é também o título do celebrado romance de Orhan Pamuk, cuja história de desenrola em Kars, num inverno especialmente nevoso, em que o protagonista, Ka, um poeta e jornalista regressado do exílio na Alemanha, investiga a razão pela qual a cidade tem uma tão alta taxa de suicídio entre as mulheres.

A Kars de Pamuk tem uma forte influência russa (a cidade foi tomada pelos russos no final do século XIX e depois pelos turcos, em 1920). Comprovei-a enquanto cirandava nas suas ruas em grelha, desenhadas a régua e esquadro, a mais óbvia herança da presença russa na cidade. No ponto mais alto de Kars está um castelo que lembra que também o império otomano deixou ali a sua marca. Subi ao morro por uma comprida escadaria e apreciei a vista do seu alto. Estepes e montanhas marcam o horizonte infinito. A Arménia à distância de um olhar. A meio caminho está Ani, o motivo por que tanta gente vem a Kars.

A estrada até Ani: infindáveis pastos e campos lavrados, nos primeiros quilómetros amarelo seco, depois verde-pastel, divididos por pequenos muros de pedra desenhando um mosaico; centenas de colmeias coloridas espalhadas pelos pastos onde pastores guardam as vacas; aldeias de yurts, com pequenas mesquitas de minaretes brancos e bandeiras turcas hasteadas, lembrando que nos aproximamos da fronteira com a Arménia; celeiros e barracões com telhados de zinco azuis e vermelhos, com fardos de palha nos quintais; uma criança em cima de um minúsculo burro, agitando uma vara para guiar o gado fora para fora da estrada; um trator velho guiado por um homem de boina, puxando um atrelado amarelo onde vão duas mulheres de xailes às flores, segurando bidões azuis; no céu águias errantes pairam em movimentos circulares contínuos, pacientes, esperando pelo incauto movimento de algum rato do campo desprevenido.

Cheguei a Ani.

Como Kars, Ani já foi a capital do antigo reino da Arménia. Era um importante entreposto da concorrida Rota da Seda, uma cidade rica, fervilhante, com cem mil almas a habitarem-na. Era conhecida como a “cidade das 1001 igrejas” e a sua glória rivalizava com Constantinopla. Era o orgulho dos arménios.

Já não existem arménios em Ani e da antiga metrópole sobram apenas ruínas de igrejas, dispersas num planalto queimado pelo sol, muitos dos templos tapados por erva seca e amarela, uma Angkor no deserto. É um local de grande beleza, provavelmente o sítio mais bonito que vi na Turquia, mas é, ao mesmo tempo, um lugar triste, com uma aura pesada, onde nos perdemos em divagações e lembramos que tudo tem um fim.

A velha capital dos arménios, expulsos da sua própria terra, é hoje menosprezada pelos turcos, um sítio em ruínas, abandonado e mal cuidado, sem infraestruturas de apoio, sem ninguém que o guarde, à espera do saque impiedoso, do esquecimento final. Ani é uma lembrança do genocídio – dos arménios, do próprio cristianismo. Ani representa uma história de tragédia e beleza, uma recordação do pior do Homem e do melhor da Natureza, que a pouco e pouco vai reclamando o que era seu. Quando poderão os arménios fazer o mesmo?

_____

Leia o post de como cheguei a Kars depois de uma viagem de 26 horas de comboio através do planalto da Anatólia