Aprender a escrever na era do medo – Parte II

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Ler: Aprender a escrever na era do medo – Parte I

No texto anterior debrucei-me sobre a forma como a escrita pode ser um elixir contra as nossas inquietações e listei os primeiros cinco passos que considero essenciais para aperfeiçoar a arte da escrita de não-ficção: escrever apaixonadamente, deixar a vergonha de lado, abraçar a simplicidade, escrever sem amarras e ignorar a Voz.

Nesta segunda parte reúno as cinco técnicas de escrita de não-ficção que considero mais relevantes. Ao contrário das anteriores, estas são sugestões mais práticas, que entram na esfera dos recursos estilísticos e da sintaxe.

Passo 6: Cortar, cortar, cortar (menos é mais)

Um texto “limpo” deve viver sobretudo de substantivos e verbos. As frases devem ser despidas de todos os elementos supérfluos. Na não-ficção os adjetivos devem ser usados com sobriedade. Sobretudo as duplas-adjetivações. Fujamos a sete pés delas. Há mesmo a necessidade de escrever que “o carro tinha um design arrojado e moderno”? O excesso de adjetivação é geralmente sinónimo de uma escrita preguiçosa e desatenta. E preguiçosa não seria suficiente? O mesmo com os advérbios. Usemo-los com moderação, como o sal nos cozinhados: apenas uma pitada por cada texto. Ao escrevermos “gritou ameaçadoramente” ou “corria apressadamente” estamos a cair em escusada redundância.

Outras gorduras a cortar são os “mas”, os “que”, os “um/uns”, os “seus/suas” e, muitas vezes, os próprios artigos definidos. Constatá-lo é tão simples como reler o parágrafo anterior e testar cortar os artigos a mais que sublinhei. O texto vive bem sem eles.

Uma última palavra para o mais escorregadio dos erros na arte da escrita: os temíveis lugares-comuns. Hoje, todas as florestas são “frondosas”, todas os dias “solarengos” e todas as tarefas “hercúleas”. O Japão é sempre o “O Império do Sol Nascente” e qualquer praia tropical é “paradisíaca”.

Fugir a estes vícios de linguagem é praticamente impossível; até o mais experiente dos escritores acabará por cair nas garras (alerta lugar-comum!) das ideias já batidas (e mais um!), o que não significa que não devamos tentar combatê-las.

Passo 7: Incluir metáforas

A mais importante das descobertas literárias era, para Aristóteles, a metáfora. Stephen King diz que ela é uma das grandes delícias da escrita e que, quando bem usada, “agrada-nos tanto como encontrar um velho amigo nome meio de uma multidão de desconhecidos”. Milan Kundera considera-a “insubstituível como meio de apreender a inapreensível essência das coisas”, e Joseph Conrad defendia que as metáforas são essenciais para cumprir o objetivo da ficção: fazer o leitor ver.

Como outras figuras de linguagem, é com metáforas que se enriquece um texto e se transmitem ideias de uma forma apelativa, uma vez que estas propõem uma versão diferente da realidade. Podemos dizer que uns olhos são uns olhos, mas com a metáfora podemos dizer que são uma janela para o mar ou um universo insondável e, de repente, o texto ganha outra vivacidade.

Passo 8: Recorrer à personificação

Das dezenas de outras figuras de estilo disponíveis no rico cardápio da língua portuguesa, destacado ainda uma das mais belas e eficazes, a personificação, que consiste em atribuir a objetos inanimados ou seres irracionais, sentimentos ou ações próprias dos seres humanos.

Dois exemplos, simples mas ilustrativos, que encontrei numa crónica da escritora Ana Bárbara Pedrosa: “Uma montanha deita-se na relva a dormir ao sol” e “O sol toca as crinas dos cavalos num afago de luz”.

À semelhança da metáfora, a personificação faz uso de um jogo de palavras que consubstancia a beleza da escrita. Todas as técnicas que agarrem o leitor pelos colarinhos (cá está a personificação), que o façam ver além das palavras, nunca são de mais.

Passo 9: Apostar nas sensações

Sons, cheiros, sabores, sensações ao toque. Na escrita, como na vida, devemos usar a abusar de todos os sentidos, criar imagens sugestivas que tornem o texto difícil de largar. Todos os grandes escritores sabem disto. Um dos grandes mestres da descrição de sensações é Albert Camus. Deixo apenas um exemplo, retirado de uma das suas aclamadas obras, A Peste:

Acordei com as estrelas sobre o rosto. Subiam até mim ruídos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré”

Passo 10: Atenção ao ritmo

“O estilo é uma questão muito simples, tem tudo que ver com o ritmo. A partir do momento em que se apanha o ritmo, deixa de ser possível usar as palavras erradas”, escreveu Virginia Woolf.

O ritmo influi na perceção que se tem de um texto e pode marcar a diferença entre um bom e um mau enunciado. Um texto com cinco frases curtas soará telegráfico, com cinco frases longas um bocejo. Opte-se pela diversificação melódica. Por exemplo: várias frases com poucas palavras, intercaladas por uma longa.

Repare-se na eufonia melodiosa desta frase de Daniel Pennac:

“Hyde nasceu de um pesadelo. Foi um feliz pesadelo. Quando acordou, fechou-se no seu gabinete e em dois dias redigiu uma primeira versão do livro. A mulher dele obrigou-o a queimar imediatamente essa versão, de tal modo ele se sentia “cool” na pele de Hyde, a roubar, a violar, a degolar tudo o que se mexia. A opulenta rainha não teria gostado. Então ele inventou o Jekyll”

De notar a sua estrutura quase piramidal: frase curta, frase curta, frase média, frase longa, frase curta, frase curta. Pennac prende-nos de início com frases curtas. Como sabe que não nos perdeu, recorre de seguida a uma frase mais longa, para depois garantir que avançamos para o próximo parágrafo terminando com outras duas frases curtas. Tão simples mas tão difícil de pôr em prática.


Livros sobre a arte da escrita que recomendo

Quem disser o Contrário é porque tem Razão, Mário de Carvalho

A Louca da Casa, Rosa Montero

A Arte do Romance, Milan Kundera

O Fazer da Poesia, Ted Hughes

O Zen e a Arte da Escrita, Ray Bradbury

Cartas a um Jovem Romancista, Mario Vargas Llosa (esgotado, difícil de encontrar em segunda mão)

Como um Romance, Daniel Pennac (esgotado, fácil de encontrar em segunda mão)

A Fé de um Escritor, Joyce Carol Oates (esgotado, difícil de encontrar em segunda mão)

Literatura e Fantasma, Javier Marias (esgotado, difícil de encontrar em segunda mão)

[Fotografia: Sri Lanka, 2019]

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