Aprender a escrever na era do medo – Parte I

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Num tempo de muitos medos, escrever pode ser o refúgio de que precisamos. As palavras são um caminho de libertação que nos faz mergulhar no fundo de nós próprios, uma evasão do nosso espaço e tempo, uma viagem a outros mundos, e por isso um possível elixir contra as nossas inquietações.

Escrever é uma das artes primordiais do ser humano. Sem arte, a escrita não passa de um ato mecânico. Mas talento, inspiração ou vontade de escrever não chegam. Sem técnica, a escrita não passa de uma amálgama de palavras despida de estrutura.

A técnica só de adquire de uma forma: aprendendo. Esta aprendizagem faz-se por “acidente”: por exemplo, lendo boa literatura e assimilando as técnicas de forma inconsciente; ou voluntariamente: em cursos, workshops ou livros sobre a arte da escrita deixados pelos grandes mestres da literatura, depositários generosos de pérolas que anseiam por ser descobertas.

Reuni um conjunto dos mais importantes ensinamentos sobre a arte da escrita que descobri ao longo do tempo, e que separei em dois textos. Este primeiro, tem uma abordagem mais ampla e subjetiva. O segundo, com sugestões mais práticas, é composto maioritariamente por técnicas de escrita.

Passo 1: Escrever apaixonadamente

A primeira regra é escrever apaixonadamente. Um texto tem de mexer com o leitor, de lhe chegar ao coração. A ambição máxima da escrita é mudar qualquer coisa em quem lê, levá-lo a refletir. Para que assim aconteça, cada frase deve ser escrita como se fosse a última, como se fosse um poema. Qualquer pessoa consegue escrever um texto inteligível, mas segredar uma coisa bela ao ouvido de um leitor é muito mais difícil.

Montaigne dizia que as palavras pertencem metade a quem fala, metade a quem ouve. O que escrevemos tem de ressoar no leitor como se fosse ele a transformar os seus pensamentos em palavras. A escrita é a comunhão perfeita entre o que escrevemos e o que é apreendido por quem lê. Só a escrita apaixonada é verdadeiramente genuína.

Passo 2: Deixar a vergonha de lado

Um dos segredos de uma escrita cativante é não termos vergonha de ser lidos. Para isso, temos de ter a coragem de partilhar publicamente as nossas fragilidades. Vargas Llosa diz que quem escreve “não escolhe os seus temas, é escolhido por eles. Escreve sobre assuntos porque lhe aconteceram certas coisas”, o que inclui algumas das nossas mais íntimas confissões. Fazê-lo é extraordinariamente difícil. Perante o terror da exposição e do julgamento, todas as desculpas servem para adiar a escrita, mas é precisamente nessa exposição que reside o encanto de um texto.

O autor chileno assegura que é aí que habita a autenticidade de quem escreve: “aceitar os seus próprios demónios e servi-los na medida das suas forças (…) Aceitando essa imposição – escrevendo a partir daquilo que nos obceca e excita e está visceral, embora com frequência misteriosamente integrado na nossa vida – escreve-se melhor”.

A escritora norte-americana Joyce Carol Oates reforça a ideia no seu livro A Fé de Um Escritor: “Põe no papel o que te vai no coração. Nunca tenhas vergonha do assunto, nem da paixão que sentes pelo assunto. As tuas paixões “proibidas” podem revelar-se, quem sabe, o combustível que alimenta a tua escrita”.

Uma forma de vencer a timidez na escrita é encarar o nosso público como uma pessoa, ou seja, escrever com uma só pessoa em mente, alguém que conheçamos ou um correspondente imaginário, por exemplo.

Passo 3: Abraçar a simplicidade

Num ensaio sobre a arte da escrita, Schopenhauer recusava a escrita pouco clara e demasiado adornada, criticando quem escreve usando “fórmulas forçadas, difíceis, com neologismos e frases prolixas que giram em torno dos pensamentos e os escondem”. Segundo o filósofo alemão, isto deve-se à vontade de expormos pensamentos “de modo a dar uma aparência erudita e profunda, para que as pessoas achem que há, por trás de quem escreve, mais do que percebem no momento.”

A simplicidade é, paradoxalmente, a mais complicada das artes da escrita. É fácil escrever de forma a que ninguém entenda, o difícil é expressarmo-nos com palavras que todos entendam. “Palavras ordinárias são usadas para dizer coisas extraordinárias”, defende Schopenhauer.

Um dos grandes erros da escrita é adornar o vocabulário, procurando palavras mais eruditas porque nos sentimos envergonhados do nosso repertório lexical. Optar por palavras complicadas é, muitas vezes, tirar-lhe a força. As ideias é que devem ser complexas, não as palavras. É essencial mostrarmos quem realmente somos, usando palavras que realmente usamos. Ser genuíno atrai quem lê, ser artificial afasta.

Como acontece na fotografia, raramente a escrita consegue ser um espelho daquilo que queremos dizer. Se assim é, então para quê dificultar ainda mais o seu entendimento recorrendo a palavras que ninguém entende?

Passo 4: Escrever sem amarras

A fotografia e a escrita têm outra característica comum: quanto mais nos esforçamos no ato de criar uma imagem (através de luz ou de palavras), menos trabalho vamos ter no processo seguinte, a edição. Mas esta hiperconsciência de escrever uma versão final, com o intuito de evitar trabalho na edição, tem uma desvantagem: rouba-nos espontaneidade.

A ditadura da sintaxe ou da gramática podem amarrar-nos demasiado a um texto e impedir-nos de ter um livre fluir das ideias. Um primeiro esboço não precisa de ficar perfeito. Ninguém o irá ler, portanto não há por que recear que este resulte numa salgalhada de erros básico e palavras vadias. Os sublinhados vermelhos e azuis do word podem esperar, a fluidez das ideias não.

Quantas vezes temos uma ideia que queremos rapidamente transformar em palavras, mas depois perdemo-la no ato da escrita por excesso de preocupação em criarmos cada frase como se fosse a sua versão final?

Devemos sim reproduzir a ideia de imediato, como uma espécie de corrente de consciência. Escrever atabalhoadamente, sem ligar a erros, escapar às amarras da forma, e só depois do texto estar terminado passarmos à revisão. É que rescrever à medida que escrevemos é geralmente mais um motivo pelo qual adiamos sempre a escrita.

Passo 5: Ignorar a Voz

Já aqui escrevi sobre o papel castrador da Voz, de como esta se alimenta caprichosamente dos nossos medos e de como os seus humores podem ser avassaladores. Começamos a escrever e de imediato sentimos o olhar inquisidor do outro lado da página. Vemo-nos na sala dos réus, perante um coro de juízes prontos a aniquilar-nos: “Qual foi a ideia dele com isto?”, “Tantas palavras mal escolhidas…”, “Que erro básico…” Nessa altura, sentimos o denso peso da responsabilidade, precisamos de ser dignos desta “grande responsabilidade” (imaginação pura), criar grandes frases, brilhar.

Noutro texto abordei a forma como podemos vencer o terror da página em branco, mas acrescento aqui outra prática que pode ajudar a ultrapassar estes receios:

O primeiro passo é começar a escrever sem a preocupação de como resultará o texto. O primeiro parágrafo será provavelmente um desastroso conjunto de banalidades. O segundo parágrafo não será muito melhor. O terceiro, estando quem escreve mais liberto da pressão inicial, mais descontraído, já começará a corresponder às expectativas.

Mas a verdadeira magia acontece do quarto parágrafo em diante: a escrita será muito mais escorreita e genuína. Depois de escrevermos o que precisávamos de escrever, estaremos finalmente a escrever o que queríamos escrever.

O último passo é o mais difícil. A realidade pode ser cruel: os primeiros parágrafos do nosso texto são provavelmente demasiado palavrosos e ocos de conteúdo, reflexo da nossa sede de provarmos o nosso valor. Ao lixo só resta um destino: o lixo. Vai custar fazê-lo, mas o resultado final será um texto mais apurado, mais bem escrito e, acima de tudo, mais nosso.

Leia aqui a segunda parte deste artigo.

[Fotografia: Ilha de São Jorge, 2008]

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