O atalho entre a Turquia e a Geórgia

Um dos prazeres da viagem é a experiência de atravessar uma fronteira a pé, caminhando de um país para o outro, sobretudo se forem dois estados completamente diferentes, com culturas, línguas e paisagens distintas. Foi o que fiz recentemente, entre a Turquia e a Geórgia.

O plano inicial era chegar à Geórgia usando apenas o comboio, como havia feito de Lisboa à Turquia, na esperança que a ligação ferroviária entre Kars e Tbilisi já estivesse concluída, mas o fim das obras tem sido sucessivamente adiado, por isso tive de passar ao plano B e resignar-me a apanhar um autocarro entre Kars e Batumi, entrando na Geórgia pelo principal posto fronteiriço entre os países, na localidade de Sarpi. Mas, quando estavas prestes a comprar o bilhete, apercebi-me que havia uma solução alternativa, uma rota mais curta e mais rápida, mas também mais laboriosa: atalhar por uma zona montanhosa, apanhando várias minivans entre pequenas cidades da Anatólia Oriental: de Kars a Ardahan, de seguida até Posof, depois atravessando o posto fronteiriço de Turkgozu, e seguir viagem até à primeira cidade georgiana, Akhaltsikhe. Decidi-me por esta solução.

Os primeiros quilómetros foram percorridos numa autoestrada novinha em folha, mas assim que viramos em direção à Geórgia as coisas mudaram. As estradas tornaram-se sinuosas e esburacadas, com várias secções em gravilha. Notava-se que uma boa ligação à Geórgia não é relevante para a Turquia. Em Ardahan passei para uma van ainda mais velha que a anterior e segui caminho para Posof. Tive como companheiros de viagem dois turcos, que iam à Geórgia em turismo; Ali, um iraniano que ia à procura de trabalho na construção em Tbilisi; e Yin, um jovem mochileiro de Xangai.

Quando a van parou, apercebermo-nos de imediato que Posof, apesar de ser a última terra turca a caminho da Geórgia, ficava a 15 quilómetros da fronteira. O serviço da van terminava ali, mas o iraniano, experiente nestas matérias, negociou com o condutor para nos levar até à fronteira por 10 liras (aproximadamente um euro e meio) cada um.

A fronteira ficava junto à aldeia de Türkgözü e notava-se que era pouco usada. Chegámos e fomos logo mostrar o passaporte para sair da Turquia, sem filas. Uns segundos bastaram. Caminhávamos agora em direção posto georgiano. Estávamos em terra de ninguém. Animados pela perspectiva de estarmos prestes a entrar num novo país, parámos para tirar algumas fotografias (a fotografia no topo desta página é do Ali).

Entrada na Geórgia. Os turcos passaram facilmente. O iraniano demorou-se mais. Os polícias, com cara de poucos amigos, fizeram-lhe perguntas e revistaram-lhe as malas, mas Ali lá acabou por ver o seu passaporte carimbado. Yin demorou ainda mais. Tinha-se esquecido de imprimir o visto. Chegou a minha vez e, já antecipando a antipatia típica dos guardas fronteiriços, preparei-me para um rude e cansativo interrogatório. Surpreendi-me ao ver o sorriso do polícia. “Quem é este senhor no passaporte?” “Fernando Pessoa, um dos nossos mais famosos escritores.” Sorriu novamente e devolveu-me o passaporte.

Estava na Geórgia. Estávamos todos na Geórgia, até Yin, que teve de esperar uma hora. Ele e eu. Não o quis deixar sozinho, por isso os turcos e o iraniano não esperaram por nós e seguiram viagem, até Tbilisi. Eu e Yin vimo-nos sozinhos, sem autocarros ou outros transportes públicos. Tentámos boleia e, quando a tarde já ia avançada, conseguimos dois lugares num carro até à primeira cidade, Akhaltsikhe. Yin continuou de imediato para Tbilisi. Eu optei por explorar aquela região, a província de Samtskhe-Javakheti, durante uns dias.