Encontros em Veliko

Claudio Magris, no seu livro “Danúbio”, descreveu os búlgaros como hospitaleiros, generosos e cordiais. Jan Morris considerou-os um “povo charmoso que todos gostam”. Estive pouco mais de 24 horas na Bulgária, mas pelas pessoas que conheci, só posso concordar com os elogios que geralmente fazem aos búlgaros. Na cidade de Veliko Tarnovo, a minha paragem entre Bucareste e Istanbul, encontrei várias pessoas que atestam isso mesmo. Esta é a história dos meus encontros com quatro simpáticos búlgaros.


Katia

Procurava um sítio para tomar o pequeno-almoço quando encontrei uma padaria-pastelaria. Quem me atendeu foi uma rapariga jovial, de sorriso fácil e olhar terno. Pedi-lhe um croissant com compota e um chá. Talvez por ser o único cliente na padaria, Katia meteu conversa comigo.
– De onde és? – perguntou-me.
– De Portugal.
– Ah, Moito bónito!
– Falas português? – perguntei, surpreendido.
– Não, mas entendo o que dizes porque aprendi espanhol, primeiro na escola e depois quando estive na América Latina.
– Viajaste por lá?
– Passei lá muito tempo. Primeiro trabalhei num hostel na ilha de Grenada, depois viajei pelo Chile, Argentina, Bolívia e Peru. Não tinha dinheiro, por isso trabalhava em troca de alojamento e refeições. Em Santiago do Chile, por exemplo, trabalhei num albergue de caminhantes. Adorei essa experiência. E tu? O que fazes por aqui?
Contei-lhe sobre a minha viagem de Lisboa a Istanbul de comboio.
– Também adoro viajar de comboio. Já fiz o transmongoliano. Foi inesquecível.
– Vives aqui em Veliko?
– Sim, nasci cá. Cheguei a viver em Sofia. Que inferno… Dois milhões de pessoas… Assim que pude, voltei para esta paz. Sou muito feliz na minha cidade.
Nessa altura entraram outros clientes e Katia era a única pessoa ao balcão. Despedimo-nos, mas antes de abrir a porta, disse-me:
– Não te esqueças de visitar o forte de Tsarevests. É aqui perto e é maravilhoso.
Assim fiz. Caminhei sozinho pela gigantesca fortaleza durante um par de horas e, quando regressei ao centro, encontrei a Katia na rua.
– Gostaste? – perguntou-me.
– Muito! Percebo a razão de gostares tanto da tua terra. É de facto muito bonita.
– Sim! Ao voltares ao centro dá um salto à igreja Sveta Nikola, é a mais interessante de Veliko.


Anna

Segui a dica de Katia e vou à procura da igreja. Vi no mapa que era numa ruela numa zona labiríntica. Alguém reparou que estava com dificuldades e aproximou-se de mim. Inicialmente não percebi se era um homem ou uma mulher.
– Estás perdido? O que procuras?
Olhei para ele, ou ela, e continuei sem perceber se era um homem ou uma mulher. Vestia-se como um homem, mas tinha um olhar feminino. Os seus olhos eram azuis muito claros, da cor de recifes de coral tropicais. Tinha um ar cansado e demasiadas rugas para a sua idade. Diz-me que se chama Anna. Fico esclarecido.
– Procuro a igreja Sveta Nikola – respondi.
– É perto. Eu levo-te lá. Segue-me.
Começava a familiarizar-me com a simpatia búlgara. Disse-lhe que sim.
Anna falava mal inglês, por isso não falámos mais. Nem era preciso. A sua disponibilidade para me ajudar foi suficiente para gostar dela. Levou-me até à porta da igreja e, agradecido, disse-lhe adeus.


Rumyana

Veliko Tarnovo é famosa pelo seu artesanato e a rua Georgi Mamarchev é onde se concentram as lojas e oficinas dos artesãos. Conheci Rumyana Stoyanova no seu atelier de peças em madeira. Era uma senhora calma e sorridente. Falava muito devagar enquanto trabalhava uma peça de madeira.
– Isto está calminho… – disse-lhe.
– Isso é agora amigo. Em Veliko, a época alta começa em março e vai até novembro. No verão há muita gente. Às 8.30 da manhã já tenho aqui turistas à porta para entrarem na loja. Sobretudo japoneses! Até já aprendi umas palavras em japonês para os atender melhor e tudo.
– Não tinha ideia que Veliko era tão conhecida.
– É sim. Há cidades mais turísticas – Sofia, Varna, Plovdiv –, mas Veliko tem muita história. Foi aqui que, em 1908, foi proclamada a independência da Bulgária [libertada do Império Otomano. Veliko foi também a capital do Segundo Império Húngaro, de 1185 a 1396].
Rumyana tinha um brilho nos olhos enquanto falava de Veliko. Perguntei-lhe como era viver na cidade.
– É perfeito, gosto muito de viver aqui. Sabe, moro a um quilómetro daqui do centro e venho todos os dias a pé. Não preciso de carro nesta cidade. Isso não se paga. Se vivesse em Sofia seria muito infeliz. E tu? De onde és?
Disse-lhe que era português.
– Nunca lá fui. Vendo as minhas peças um pouco por toda a Europa, em feiras de artesanato, mas nunca fui a Portugal. Lembro-me apenas de conhecer um homem de Coimbra numa feira em Narbonne.
Compro-lhe uma peça de madeira e nessa altura entram outros clientes. Saí e continuei a descer a rua do artesanato.


Russy

Na rua do artesanato entro numa pequena loja que vende talhas de madeira trabalhadas e pintadas com motivos religiosos, sobretudo iconografia ortodoxa. No seu interior, um velho de casaco preto, camisola de cores garridas e avental sarapintado de tinta, cola minuciosamente folhas douradas finíssimas numa talha e depois, com um pincel delgado, pinta a talha com destreza.

Pendurados nas paredes estão vários diplomas que atestam a qualidade do trabalho do velho, e foi num deles que li o seu nome: Russy Dobrev. Descubro também que nasceu em 1946, que se graduou numa universidade de Veliko Tarnovo e que tem várias peças em galerias búlgaras, russas, norte-americanas, italianas e japonesas. As talhas são lindíssimas e decido comprar uma. A maioria custa centenas de euros e são demasiado grandes para caberem na minha mochila. Compro uma mais pequena por 30 levs, com a figura de Santa António.

Russy tosse compulsivamente e de forma preocupante. Tento falar com ele, mas não fala inglês. Comunicamos com gestos, o que não é tarefa fácil na Bulgária. É que, por exemplo, para dizerem “sim”, os búlgaros abanam a cabeça para a direita e para a esquerda, como no nosso “não”. Mas lá nos safamos.

Cortês e afável, disse-me que sim (ou que não, depende do ponto de vista) quando lhe perguntei se o podia fotografar a trabalhar. Acho que ficou contente por o fotografar. Fez pose e sorriu. Despediu-se de mim com um abraço, o que me surpreendeu. Foi assim Veliko Tarnovo: uma agradável surpresa, uma cidade de gente afetuosa que não me esquecerei. Estes quatro retratos serão a minha melhor recordação.


Fotografias de Veliko Tarnovo


O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul