Vénia à Montanha Sagrada do Cáucaso

Depois de uns dias em Tbilisi, ansiava por outros ares, os da montanha, e o Cáucaso era perfeito para a minha escapada. Aquela cordilheira é provavelmente a razão principal por que viajantes visitam o país. Uma viagem à Geórgia sem uma ida ao Cáucaso é impensável. A maioria dos turistas ruma ao Parque Nacional de Svaneti, junto à fronteira com a região russa de Kabardino-Balkaria. Como tinha poucos dias, optei antes por um sítio mais perto de Tbilisi, um dos locais mais icónicos do Cáucaso: o Monte Kazbek.

O Kazbek é o segundo mais alto vulcão daquela cordilheira (depois do Elbrus) e situa-se muito perto da fronteira russa, na província georgiana de Mtskheta-Mtianeti, uma região rodeada por repúblicas semiautónomas conhecidas pela sua instabilidade: Ossétia do Sul, Ossétia do Norte, Inguchétia e Chechénia.

A estrada que liga Tbilisi ao Monte Kazbek é, por si só, um motivo de interesse. Chamam-lhe a Autoestrada Militar da Geórgia, mas de autoestrada tem pouco – é uma estrada sinuosa de duas faixas apenas, que serpenteia as montanhas através de penhascos vertiginosos. Era tão perigosa que Anton Chekhov escreveu numa carta: “sobrevivi à Autoestrada Militar da Geórgia…”, acrescentando “não é uma autoestrada, mas poesia”.

Muitas vezes jocosamente apelidada de “Autoestrada da Invasão”, os russos construíram-na após anexarem a Geórgia em 1801, para ligar as cidades de Tbilisi e Vladikavkaz, na Ossétia do Norte, mas usaram-na sobretudo para transportarem soldados e armamento até ao coração da Geórgia, acabando por controlar toda a região.

A minha marshrutka demorou duas horas a fazer o percurso entre Tbilisi e Stepantsminda (também chamada de Kazbegi), a pequena cidade localizada no sopé do Monte Kazbek. Pedi ao motorista para me deixar uns quilómetros antes. Saí na aldeia de Achkoti, onde pernoitei debaixo do céu formidavelmente estrelado da montanha. Na manhã seguinte, fiz uma caminhada entre Achkoti e Sno, extasiado pelas vistas arrebatadoras do Cáucaso iluminado pelo sol quente da alvorada.

Depois fui de boleia até Stepantsminda. Percebi de imediato que aquela cidade, bastante russificada, não tinha muito para se ver, por isso encaminhei-me para o Monte Kazbek, ou melhor, para a Igreja de Gergeti, que fica no topo de uma outra montanha a caminho do Kazbek.

Subir ao Monte Kazbek em si implicava uma caminhada exigente de pelo menos quatro dias, dias que eu não tinha, pelo que me contentei em subir a Gergeti e apreciar a vista da montanha de lá. Não me arrependi. Com 5047 metros de altitude, aquele gigantesco estratovulcão adormecido é impressionante de se observar. Os georgianos chamam-lhe Mqinvartsveri, o “Pico Muito Frio”, ou “Pico do Glaciar”, visto ser encimado por um enorme cone com uma cúpula de neves eternas.

É também conhecida como “A Montanha de Cristo”, pois reza a lenda que o monte guardava o berço de Jesus. Outros dizem que guardava a tenda de Abraão. Outros acreditam ainda que foi no Monte Kazbek que Prometeus foi castigado por Zeus por ter roubado o fogo dos deuses e oferecido-o aos mortais, tendo sido acorrentado a uma rocha e atormentado continuamente por uma águia, que ia bicando o seu fígado.

Para os georgianos a montanha é tão sagrada que, quando os russos se atreveram a começar a construir um teleférico até à igreja de Gergeti, se gerou uma revolta e os populares trataram de o destruir.

O Monte Kazbek não tinha qualquer valor sagrado para mim mas, ao vê-lo ali, majestoso e brilhante, tão perto – parecia que quase lhe podia tocar –, percebi o fascínio dos georgianos (e não só) por aquela montanha sagrada. Era a visão perfeita de uma montanha. Era assim que deveriam ter todas as montanhas – sagradas, protegidas, amadas.