Como os amigos

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Os livros, como os amigos:

Devem ser poucos mas bons. De que vale termos muitos para depois passarmos tempo quase nenhum com cada um deles? Se forem poucos voltamos a eles uma e outra vez, apreciamos a sua companhia, olhamo-los nos olhos sem a urgência do tempo, descobrimos o que têm para nos contar, em cada encontro abraçar um novo deslumbramento. A repetição é a mãe da amizade. E um dos grandes prazeres da vida.

Não devem ser julgados pela aparência. Os mais modestos são geralmente os mais francos, sempre de braços abertos para dois dedos de conversa. Os mais exuberantes chegam-nos cheios de promessas, mas revelam-se amiúde despidos de substância. Por isso, voltemos sempre aos que nos são mais queridos. Nunca os devemos esquecer. Se necessário, usemos um marcador para assinalar a quais devemos voltar uma e outra vez.

Os mais novos trazem o perfume da irreverência, mas são os mais velhos a oferecerem-nos a dádiva da sabedoria. Os mais engelhados e amiúde esquecidos são os que têm as melhores histórias para nos contar. E um ou dois encontros não chegam para sorvermos todo a erudição oferecida. É preciso ir mais além, deleitarmo-nos com a bênção da sua companhia, colher todos os tesouros que têm para nos dar, dia após dia.

Os livros enriquecem-nos, alegram-nos, consolam-nos. Às vezes desiludem-nos, às vezes surpreendem-nos. Como só os amigos sabem fazer.

Amigos Milan, Albert e Virginia, prometo estar mais tempo convosco.

Quando passo por vós a correr noto o olhar reprovador, intimidatório. Às vezes, consigo parar e cumprimento-vos, pergunto como estão, até trocamos umas palavras, mas depois tenho de seguir caminho, não tenho tempo para vos dar mais atenção. Há sempre amigos de quem gostamos mas com quem não estamos o tempo que merecem. Persegue-me um sentimento de culpa, acreditem.

Prometo estar mais tempo convosco, dedicar-vos horas, trocarmos  ideias. Quando? Em breve, talvez amanhã, talvez para a semana, não sei, o que sei é que tenho em vós bons amigos, disso não tenho dúvidas. Peço-vos mais um pouco de paciência.

Como assim tenho estado com outros? Tenho outras prioridades? Acho que não devemos ir por aí. Se tenho estado mais com o Saramago, a Rosa Montero ou o Nabokov é porque os conheço há mais tempo. Já passámos por muito juntos.

Vejam lá que o camarada Nabokov há uns dias apresentou-me a um tal Humbert Humbert (isso mesmo, nome e apelido iguais; ele há malucos para tudo), um americano que me confidenciou a sua obsessiva paixão por uma ninfeta. Aquela história prendeu-me como nenhuma outra. A forma fervescente como Humbert me a contou só está ao alcance dos mestres. A sua história era de tal modo cativante que a decidiu passar para livro, um romance. O título não podia ser outro que não o nome dela: Lolita.

Às tantas quem lhe deu a ideia do livro foi a Rosa Montero. Ela garantiu-me que escrever romances é o que há de mais parecido com apaixonar-se. Depois do que li e ouvi, não duvido.

Acreditei na Rosa, mesmo que ela se assuma como louca. Mas ela é louca no bom sentido: a Rosa diz que quem escreve, como ela, tem o privilégio de continuar a ser uma criança, de explorar a imaginação, de flutuar no vazio e criar, criar, criar. Defende que escrever é uma autorização da esquizofrenia; e que, com essa loucura, quem escreve deve tentar roçar a beleza do mundo. Sou capaz de escutar as ideias da Rosa horas a fio…

Já com o Saramago, que é um malabarista da narrativa, passei noites animadas a ouvi-lo sobre as aventuras do malogrado Caim. Esse mesmo, o do Génesis. Que história aquela. Não bastava o pai ter sido expulso do faustoso jardim onde residia, e por isso o filho ter vivido nas alfurjas do reino, Caim ainda teve suportar uma juventude de árduo trabalho na agricultura, para depois ver o seu esforço ignorado pelo Criador em detrimento dos empreendimentos do irmão, que era pastor.

Depois, bom, depois passou-se. Assomou-se-lhe o ciúme e o que se seguiu foi o primeiro fratricídio da História. Saramago descreveu-me com humor (e algum sarcasmo) as peripécias de Caim durante o longo exílio a que se teve de submeter como castigo pelo crime divino. Quando Caim chegou a Babel, não é que…

Como? Aborrecidos? Eu percebo o vosso enfado, sei que ainda não consegui ouvir o que têm para me contar. Milan: quero muito conhecer as tais teses existencialistas sobre a leveza do ser. Albert: anseio que me expliques tudo sobre a queda desse Jean-Baptiste Clamence às mais obscuras infâmias da Humanidade. Virginia: se os teus diários são melhores que muitas das narrativas mais rocambolescas (sabe-se como tantas vezes a realidade excede a ficção), imagino como não serão aquelas novelas que tanto pedes que escute.

Estou ciente que não existe maior agonia do que carregar uma história por contar dentro de nós.

Milan, Albert, Virginia: prometo estar mais tempo convosco. Em breve. Muito em breve. 

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