Como vencer o terror da página em branco

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Na crónica anterior escrevi sobre como a Voz nos bloqueia a escrita, da forma como nos impede de traduzir pensamentos em palavras, o medo do julgamento. No dias em que a Voz está mais ativa vence o Vazio, a página em branco. Somos derrotados por, por exemplo, julgarmos que o texto não é bom o suficiente, que as ideias não foram suficientemente refletidas ou estruturadas, que não foram escolhidas as palavras certas, as frases certas.

Há o tal terror paralisante sempre à espreita: o medo de falhar. E esse medo bloqueia-nos a ligação entre o cérebro e a ponta dos dedos, que deveriam dançar livremente no teclado sempre que assim desejamos, como fazem neste preciso instante no meu teclado.

Certa vez, ouvi num podcast o argumentista norte-americano David Mamet falar sobre esta problemática do medo com um exemplo curioso. Dizia ele para imaginarmos que alguém nos pergunta: “Tens namorada, ou esposa?” A que respondemos “Sim”. “E tens um amigo que seja mais bonito e mais rico do que tu?”. “Certamente”. “Então, assim sendo, pela lógica do medo que falas, a tua namorada ou mulher deveria estar numa relação com esse amigo e não contigo…”

Mamet quer com isto dizer que não nos devemos comparar permanentemente com os outros, que todos temos direito à nossa voz. Se há melhores que nós na arte da escrita? Absolutamente. Se o que fazemos vai ser tão bom como o que os outros fazem ou fizeram? Certamente que não. E então? Porventura os jogadores de futebol, cantores ou atores deixam de fazer o que gostam com receio da comparação?

Ler os melhores pode levar-nos ao desespero: “nunca vou escrever nada que se aproxime sequer a isto”, mas estes calamitosos pensamentos também podem servir como estímulo, motivando quem escreve a trabalhar mais. Sobre isso, Stephen King dizia que “ser emocionalmente atingido pela grande escrita, ser humilhado, faz parte da formação necessária de quem escreve”.

Não adianta esperar pela “musa” da perfeição. A perfeição não existe. O trabalho de quem escreve é fazer com que a musa saiba onde estamos (que deve ser à frente de um ecrã de computador, ou de um caderno ou qualquer ferramenta de escrita) e, mais cedo ou mais tarde, ela acabará por aparecer.

O mais importante é, portanto, esquecer os outros e avançar, vencer o terror da página em branco. Não podemos aperfeiçoar uma página em branco, mas um primeiro esboço sim. É preciso escrever.

Ambicionar obedecer ao antigo preceito romano nulla dies sine linea (nem um dia sem uma linha) será decerto exigir de mais a nós próprios, mas se a escrita for encarada como necessidade e não obrigação, como arte e não processo maquinal, acabará por fluir naturalmente, como a torrente de uma cascata após a primeira chuvada do ano.

Mas para que a torrente da escrita flua, a arte não é suficiente. É preciso complementá-la com outro elemento primordial: a técnica. Outra escritora norte-americana, Joyce Carol Oates, dizia que sem técnica, a arte permanece no domínio privado, e que sem arte, a técnica não passa de um ato mecânico.

É sobre esse cosmos altamente subjetivo que é a técnica que me debruçarei na próxima crónica.

[Fotografia: Islândia, 2015]

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