Da timidez

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Estou apaixonado. Hoje é o dia do tudo ou nada. Há dias gravei a navalha, no tronco de um pinheiro, o meu nome juntinho ao nome dela, os dois envolvidos por um coração, numa tentativa supersticiosa de garantir que o plano que tracei vai resultar.

Vejo-a. Passei os últimos dias e noites a tentar ganhar coragem para falar com ela. Chegou o momento. Vou ter com ela. O suor brota-me por todos os poros, o coração sobe-me à boca, as pernas tremem-me como varas. Ela está na conversa com os amigos, calma como uma manhã de outono, sorrindo com aquele sorriso que me hipnotiza, um sorriso desenhado por lábios tão vermelhos como gelados de morango depois de chupados.

Caminho na sua direção, preparando as palavras que tenho treinado. Ela apercebe-se. Olha-me com alguma surpresa. É agora ou nunca. Um imenso rubor chega-me à cara. Era tudo o que eu não queria, mas agora não há como voltar atrás. As palavras vêm-me já tremidas do cérebro e tremidas me chegam aos beiços: “Olá. Olha, queres namorar comigo?”

O segundo de silêncio que se seguiu fez-me sentir numa ilha, sozinho, rodeado por um imenso lago vazio. A resposta veio, primeiro piedosa, “desculpa”, depois impiedosa, “mas não”. O meu peito fecha-se, o oxigénio barrado à entrada, o rubor trocado pela lividez. “Está bem…”, respondi. E fugi dali, do recreio da escola, com o queixo escondido no peito, derrotado, desejoso de nunca mais passar por tamanha vergonha.

Sou tímido desde que me lembro. Esta história é apenas uma no longo historial de episódios que marcaram a minha timidez. As miúdas giras intimidavam-me, corava por tudo e por nada e era muito calado. Hoje, coro muito menos, mas as miúdas giras ainda me intimidam e continuo pouco falador.

Sou aceitavelmente participativo entre dois ou três amigos, mas retraio-me se o grupo for maior, perdido no vaivém da conversa, incapaz de lidar com o tumulto e sem vontade de chamar a atenção pela palavra. Isso implicaria mais do que três pares de olhos postos em cima mim, uma autêntica assembleia, certamente julgadora de todas as minhas falhas, hesitações e tiques nervosos.

Em contexto social, tenho sorriso fácil, frequentemente mais racional do que espontâneo (a isso me obrigo, de tal forma que ao final de um dia de exigente interação social me costumam doer os músculos da cara de tanto sorrir); já o riso, é-me quase estranho. Se racional, vê-se que é forçado; se esperar que seja espontâneo, raramente surge. E ainda nem que assim é: rir em público é pôr-me num pedestal e gritar “olhem para mim!”, o pesadelo de qualquer tímido.

Como muitos tímidos, tenho uma máscara sempre à mão. Uso-a em ocasiões onde esperam mais de mim do que aquilo que consigo dar se for simplesmente eu. A máscara tem o condão de fazer-me mais extrovertido do que realmente sou, mas ao final do dia sinto em demasia o seu peso e a minha simulação de personalidade vai-se tornando inverosímil. A máscara perde densidade e fica translucida.

E quando assim é, quando chega a fadiga e a máscara se esvanece, não há volta a dar, torno-me num tímido ansioso e com vontade de fugir de onde quer que esteja. As conversas de chacha rapidamente me aborrecem, tenho pouco jeito para elas, sobretudo baboseiras sobre bens materiais, relatos de sucessos profissionais ou proclamações vaidosas de contactos “famosos” que se tem. Uma pessoa que fala demasiado de si é uma pessoa surda – as palavras saem-lhe com facilidade pela boca, mas não lhe interessa ouvir o que os outros têm para dizer.

Tudo o que soa a vanglória pessoal causa-me uma certa repulsa. Talvez parta daí a minha aversão a entrevistas. Elas implicam que fale de mim e, num certo sentido, requerem o uso da vanglória. Sei que só assim podem haver entrevistas, falando das nossas conquistas, mas não consigo evitar o desconforto ao fazê-lo.

A minha mulher costuma dizer-me que sou a pessoa que conhece que menos se sabe vender, que sofro de excesso de humildade. Eu falo-lhe do insuportável que é para mim vestir-me de vendedor daquilo que considero ser sempre a banha da cobra. Todos os tímidos padecem deste mal, o síndrome do impostor, convencidos de que os seus feitos não merecem atenção, que os seus sucessos não passam de fraudes, que não fizeram nada que os outros também não fizessem. É a história do ovo de Colombo ao contrário: o que eu fiz qualquer um conseguia.

Surgem aqui algumas questões: não será este excesso de humildade do tímido uma manifestação do oposto, ou seja, uma certa sobranceria por não se ser “como os outros”, que não passam de gente pretensiosa e sequiosa de atenção? Não será a timidez uma espécie de desculpa para não se ter o trabalho de falar com os outros? Terá o tímido um preguiçoso desinteresse pelos que lhe é exógeno? Em suma: não será um tímido também um presunçoso?

Paradoxalmente, a timidez pode, de facto, coincidir com alguns laivos de presunção, mas não creio que seja uma característica sine qua non, intrínseca, do tímido. Muitas pessoas confundem o silêncio do tímido com arrogância, mas à sua frente está quase sempre alguém assustado – assustado por conhecer novas pessoas, assustado que o conheçam, que o rejeitem, que lhe digam, como ela disse: “desculpa, mas não”.

O tímido é, assim, um alvo fácil de mal-entendidos. Por isso, acaba por se afastar da multidão e procurar um refúgio onde tranquilamente possa anunciar ao mundo os seus sentimentos, gravando-os, por exemplo, num pinheiro, com uma navalha. Ou com um teclado de computador, escrevendo textos como este.

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