Do vazio, a escrita

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A contista Zora Neale Hurston dizia que “não existe maior agonia do que carregar uma história por contar dentro de si”. Não duvido. Uma história não escrita é o vazio, e o vazio assombra. Foi com essa ideia em mente que comecei este blogue, em 2013. Não suportava, não suporto, deixar uma história por contar.

Verdade que procurá-la, vivê-la, senti-la é apaixonante, mas é apenas metade do prazer. A outra metade passa por contá-la, escolher o ângulo de abordagem, a estrutura, o título, as palavras certas. Fazer parar o tempo contando uma história.

Procuro e escrevo histórias movido por curiosidade intensa. Muitas vezes é apenas depois de ter vivido o episódio, no momento da sua escrita, que fico realmente consciente dos seus detalhes. É também no ato da escrita que mergulho na história e que frequentemente me coloco na pele do outro.

Essa é uma das magias de escrever: ser outro que não eu, descortinar como vive outrem, imaginar o que pensa, como pensa. Por outras palavras: ver a vida pelos olhos dos outros. Quem escreve “tenta descobrir um segundo ser dentro dele, e o mundo que o faz ser como é”, contava Orhan Pamuk.

A viagem é o território por excelência para ver a vida pelos olhos dos outros. A viagem convida à escrita como poucas outras coisas. Mas, na minha rotina, as viagens são a exceção, não a regra, e é nesses (nestes) períodos sem a aventura da viagem que surge o vazio, uma espécie de writer’s block, no meu caso quando fico demasiado tempo sem partir à descoberta do desconhecido.

É desse vazio que tende a emergir a crónica, o registo diarístico. Às vezes as melhores histórias estão mais perto do que imaginamos, no que nos rodeia, nas próprias peripécias do dia-a-dia, no mais íntimo de nós, naquilo que pensamos, sonhamos, ambicionamos.

No meio literário diz-se com frequência que tudo o que se escreve é, de certa forma, autobiográfico. Não terá sido tanto assim nas histórias que tenho publicado sobre viagens, mas é-o certamente nas crónicas que agora inauguro no Uma Foto, Uma História.

Não será um diário, longe disso. Tal empreitada produziria em mim uma ansiedade escusada, além de que um diário (que seja lido pelos outros) pressupõe que nele se anotem peripécias diárias, mas como o faria se na maioria dos meus dias peripécia nenhuma sucede?

Será sim um conjunto de pensamentos e episódios sem data ou tema estipulado, apontamentos inevitavelmente prosaicos conquanto − assim espero − minimamente interessantes.

O tema da primeira destas crónicas será sobre o meu novo e indizível vizinho: o Tejo.

[Fotografia: Deserto do Rajastão, 2012]

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