Quem reina no escritório-selva?

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Um escritório é como uma selva, habitado por espécies bem distintas. No escritório-selva reina a tensão. Coabitam no mesmo espaço os alfa e os submissos, os caçadores e os caçados, os espalha-brasas e os que nem se dá por eles. A luta é quase sempre discreta, velada pela densa vegetação dum acordo tácito entre rivais. Mas, por vezes, é feroz, e aí caem carapaças, descobrem-se camuflagens e afiam-se garras. É nas quezílias de escritório que as diversas espécies revelam a sua verdadeira natureza e, muitas vezes, o seu lado negro.

Eis uma lista das mais letais espécies do escritório-selva:

𝐎 𝐥𝐢́𝐧𝐠𝐮𝐚-𝐚𝐟𝐢𝐚𝐝𝐚

Avesso à crítica cara-a-cara, o língua-afiada desata a falar mal do próximo (mesmo que tenha acabado de almoçar com ele) assim que este vira costas. Quando algo corre mal a culpa é sempre dos outros. O língua-afiada nunca admite falhas e não poupa ninguém, sobretudo os seus superiores. Quando tem finalmente a oportunidade de contribuir para melhorar alguma coisa, fica mudo, zeloso do seu ganha-pão: a maledicência gratuita.

𝐎 𝐫𝐞𝐯𝐨𝐥𝐭𝐚𝐝𝐨

Queixa-se de tudo e de nada. Bufa quando um colega diz qualquer coisa que não lhe agrada, usa o teclado de forma maníaca, bate com as punhos na mesa quando o computador encrava, barafusta quando é preciso atualizar programas. Nunca procura soluções. Prefere antes reclamar a plena voz para que seja notado e socorrido ­ – é mais fácil assim. Agir e antecipar problemas? Isso nunca.

𝐎 “𝐢𝐧𝐝𝐞𝐬𝐩𝐞𝐝𝐢́𝐯𝐞𝐥”

Já está há tantos anos na empresa que se tornou demasiado caro de despedir. Passeia displicência e faz o que lhe dá na gana: chega tarde, sai cedo, tira duas horas de almoço, faz três pausas para o lanche e dez para fumar. Tempo no escritório: oito horas; tempo útil: três horas. Odiado por todos excepto pelos compinchas “indespedíveis”.

𝐎 𝐟𝐫𝐮𝐬𝐭𝐫𝐚𝐝𝐨

Facilmente identificável: dá reprimendas aos subordinados diante todos, em vez de o fazer em privado. O seu carácter petulante irrita os que o rodeiam, mas é raro quem o chame à atenção. Geralmente, a sua índole opressora esconde (debaixo de várias camadas ciosamente preservadas) inseguranças e frustrações alheias ao trabalho, mas descarregadas no escritório.

𝐎 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐭𝐢𝐧𝐡𝐨

Não há quem se mexa melhor dentro de uma empresa que o espertinho. A lábia é o seu trunfo, e apesar de não primar pela inteligência nem contar com cultura geral que se preze,  ascende facilmente a cargos de chefia pela sua confiança e à-vontade. É dos piores tipos de chefia, já que habitualmente substitui as suas notórias fragilidades pela arrogância e tiques ditatoriais.

𝐎 𝐦𝐞𝐫𝐜𝐞𝐧𝐚́𝐫𝐢𝐨

Está no escritório para trabalhar, ponto final. Não contem com ele para piadas, brincadeiras, conversas sobre futebol ou almoços de grupo. Frequentemente misantropo, não se considera sequer boa companhia. As conversas rapidamente o aborrecem e o interesse pelas vivências alheias é inexistente. Muitas vezes esconde uma certa mania da superioridade.

𝐎 𝐝𝐨𝐞𝐧𝐭𝐞

Eterno enfermo, apregoa as suas infindáveis maleitas sempre que pode, de preferência a plena voz, ávido de piedade e palmadinhas benevolentes nas costas. Cego pela sua própria comiseração, não suporta queixas rivais. Só ele padece de todos os males do mundo. Louve-se, no entanto, a naturalidade com que confessa detalhes pessoais que a maioria nunca ousaria partilhar.

𝐎 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐚𝐧𝐭𝐞-𝐢𝐫𝐫𝐢𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞

Na primeira semana já é tu cá tu lá com o chefe. Pedantismo ostensivo, dirão alguns, líder nato, pensarão outros. Que é irritante, é. Fala alto, ri alto e refila alto. Este egocêntrico critica só porque sim e deita abaixo qualquer ideia que não a dele dizendo que “é mais do mesmo”, mas depois não apresenta alternativas.

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