Eu, sovina do tempo, me confesso (apologia da lentidão)

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Há duas coisas sobre as quais quase todos nos queixamos: dinheiro e tempo. Sabemos como ambos são difíceis de conquistar e, por conseguinte, de desperdiçar. Não me considero especialmente sovina com o dinheiro, mas sou-o certamente com o tempo.

Eu, sovina do tempo, me confesso.

O dia nunca me chega. Há demasiados livros para ler, filmes para ver, músicas para ouvir e passeios para fazer. Sim, falo de puro ócio. Um sovina do tempo precisa de horas como do pão para a boca, não para atividades úteis, mas para fazer o que mais lhe dá prazer.

Prazer, esse conceito frequentemente negligenciado num mundo dominado pela tirania da utilidade. O tempo, dizem-nos, deve, perdão, tem de ser gasto em tarefas úteis e produtivas: ficarmos horas extra no escritório para mostrar serviço, tirarmos cursos, dedicarmo-nos a projetos freelancer, apostarmos no networking.

E o ócio? A maioria de nós é incapaz de o abraçar sem culpa. Atividades prosaicas como ler, meditar ou simplesmente contemplar são tratadas como de inadmissível inutilidade. Já um sovina do tempo, enfrenta a ociosidade olhos nos olhos, aceita-a, estima-a, e sabe que horas gastas, por exemplo, a ler, são inestimáveis. Aquele silêncio, durante e imediatamente após a leitura, é um dos grandes prazeres da vida.

Outro maravilhoso prazer de um ócio como a leitura é a possibilidade da lentidão. Numa época abandonada à velocidade, em que, como escreve Milan Kundera, “as coisas acontecem depressa de mais, ninguém pode ter a certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo”, ler um romance é um dos raros momentos em que podemos abrandar, dar descanso aos nossos espíritos fatalmente inquietos e navegar sem âncora nas ondas da ficção.

Aqui reside um dos mais belos paradoxos da leitura: ela permite-nos viajar por outras latitudes, fugir momentaneamente da nossa realidade mas, simultaneamente, habitar o presente, experienciá-lo intensamente, criar memórias enquanto lemos.

O indulgente sovina do tempo persegue constantemente esta lentidão fecunda de memórias vívidas e duradouras. Kundera classifica esta ação de abrandar para construir memórias como “uma equação elementar da matemática existencial”. O autor checo, um dos maiores génios ainda vivos, pormenoriza: “o grau da lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.”

A pressa é inimiga das memórias felizes. É por isso que abrandamos quando lemos uma frase poderosa ou contemplamos uma paisagem única: para as memorizarmos no nosso baú de relíquias.

No sentido oposto, se lemos, comemos ou viajamos depressa, a memória não permanecerá em nós. Outro exemplo desta equação: quando algo de mau nos acontece, queremos esquecê-lo o mais rapidamente possível. Felizmente, somos frequentemente bem-sucedidos nesse propósito.

Em resumo: a lentidão cria memórias; a velocidade bloqueia-as. Um sovina do tempo aspira repetidamente à ociosidade e à lentidão, sacrificando horas de produtividade, mas conquistando aquilo que mais lhe interessa: construir memórias e, com isso, viver em maior plenitude.

É essencial abrandar, ler, contemplar, pensar. Não desperdicemos tantas horas em tarefas vácuas que não perduram nas nossas memórias. Sejamos orgulhosos sovinas do tempo.

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