Noite atribulada no Expresso do Bósforo

20:23, estação de comboios de Veliko Tarnovo
A próxima etapa do Meu Expresso do Oriente implicou apanhar um comboio regional de Veliko Tarnovo a Dimitrovgrad. Tinha duas carruagens apenas, as duas com compartimentos. Foi uma viagem de três horas e meia numa carruagem sem ninguém, num regional lento, escuro e aborrecido. Da paisagem búlgara nada, apenas o breu. Apareceu a revisora e pediu-me o bilhete. Sentou-se ao meu lado por algum tempo. Falava comigo em búlgaro e eu tentava comunicar em inglês. Nada. Pelo menos fez-me um pouco de companhia neste comboio perdido na Bulgária.

00.20, Dimitrovgrad
Apanho o Expresso do Bósforo, que me levará ao destino final, Istanbul. O Expresso liga Bucareste à capital turca em 14 horas. Como o apanho na Bulgária, serão “apenas” 10 horas de viagem.

Por mais cinco euros escolhi um sleepers só para mim em vez de passar a noite numa couchette de seis lugares. Cansado como estava, congratulei-me pela escolha, mais ainda quando terminei a viagem e percebi o inferno que foi. Foram cinco euros bem pagos para uma maior privacidade e conforto, com direito a um mimo inesperado: tinha à minha espera uma garrafa de água, um sumo e um pacote de bolachas.

Não havia carruagem-restaurante. Não consegui jantar uma única vez numa carruagem-restaurante em toda a viagem de comboio de Lisboa a Istanbul. As carruagens-restaurante são uma espécie em vias de extinção. Longe vão os tempos das refeições servidas a bordo.

Para se perceber o contraste, este era o menu do Expresso do Oriente, em 1884, no dia 6 de dezembro:

Sopa de tapioca, azeitonas e manteiga
Robalo com molho holandês
Perna de carneiro à moda da Bretanha
Frango com agriões de Mans
Espinafres com açúcar
Tarte de frutos
Queijos, fruta diversa

Na minha versão do Expresso do Oriente tive de me contentar com bolachas e um sumos.

Pelo menos não me podia queixar do meu compartimento. Era melhor do que esperava. Era alcatifado, com um pequeno lavatório, tomadas de eletricidade, minifrigorífico, cabides, luz de presença e uma espécie de escrivaninha.

01.10, Svilengrad
Em Svilengrad, a última cidade búlgara antes de chegar a território turco, a polícia fronteiriça verificou-me o passaporte e revistou-me a mochila. O comboio ficou parado na fronteira mais de meia hora e não consegui dormir.

02.00, Kapikkule
Entro finalmente na Turquia. No posto fronteiriço de Kapikkule o comboio foi recebido por uma parelha de polícias, que começaram a revistar o comboio, apontando lanternas nos intervalos entre carruagens e até debaixo das carruagens, parecendo procurar por potenciais imigrantes ilegais. Na próxima hora é assim que serei tratado, como um imigrante ilegal, alguém que quer fugir da miséria da União Europeia e alcançar o El Dorado que é a República Turca…

Em Kapikkule a polícia mandou sair toda a gente do comboio. Éramos uma vintena de passageiros. Havia dois grupos de turistas, um argentino outro japonês. O posto fronteiriço não passava de um barracão. O frio das duas da manhã era implacável. Estávamos em pé e ao frio à espera de autorização para entrar na Turquia. Abençoadas fronteiras Europa do Leste que, por mais rudes que fossem os seus funcionários, ao menos não nos faziam sair do quente do comboio.

Estava na fila quando começou o tratamento diferenciado. “Ficas aí atrás”. Tive de ir para o fim da fila e deixar outros passageiros serem atendidos primeiro. Não percebi porquê. À medida que os outros passageiros regressavam ao comboio de passaporte carimbado na mão, eu, o último da fila, era deixado para trás. Quando cheguei ao guichet, mostrei o meu passaporte ao polícia, que, ao contrário do que aconteceu com os dos outros passageiros, foi levado para o interior do barracão.

Não faltava muito para o comboio partir e contava ter rapidamente o meu passaporte de volta. O revisor do comboio estava ao meu lado, como que vigiando um presidiário. Olhei para ele confuso. “Wait, wait, wait”, disse-me impacientado com a minha pressa. Eu estava apreensivo, pois deixara tudo o que era de valor dentro do meu compartimento. Todos os passageiros tinham regressado ao comboio e qualquer um podia entrar no meu compartimento e roubar-me à vontade. Tiveram mais de meia-hora para o fazer. Enquanto isso, eu estava a ser alvo de tratamento VIP. “Espera naquela sala”, ordenaram-me. Era uma sala deprimente, com uma mesa e uma cadeira onde me obrigaram a sentar. Deixaram-me lá sozinho durante quinze minutos.

Aproximava-se a hora do comboio partir e comecei a pensar que iria seguir sem mim. Pior que isso, que ia ficar sem as minhas coisas. Nessa altura, percebi que provavelmente estava a ser alvo daquele tratamento porque era único passageiro que viajava sozinho, um tipo com uma barba de uma semana e roupas encardidas. Todo aquele cenário, controlado por intimidatórios polícias fronteiriços, mais parecia uma prisão, e eu senti-me um imigrante ilegal a querer entrar naquele extremo da Turquia.

Cada vez mais impaciente, tentei sair dali à procura de respostas, mas fui demovido da ideia por um polícia que me gritou “WAIT”. É então que entra na sala um dos polícias, mais jovem do que os restantes, mas igualmente mal-encarado. Sentou-se à minha frente e, sem mais, ordena-me:
– Mostra-me a tua reserva de hotel.
Por felicidade tinha reservado no dia anterior um quarto em Istanbul e tinha um print-screen da minha reserva no telemóvel, mas e se não tivesse? Isso seria motivo para não me deixarem entrar na Turquia? Pelo ar grave do polícia, claro que sim. Mostrei-lhe o print-screen. O polícia, confuso e rude, responde-me:
– Mas o que é isto? Quero saber como se chama o hotel!
– Está aqui: Alright Suites – respondi-lhe, consciente que aquele não era o nome de hotel mais convincente do mundo.
Resignado, o polícia continuou o interrogatório:
– Quantas noites em Istanbul?
– Quatro.
Eram quase três da manhã, a hora do comboio partir.
– Voo de regresso. Mostra-me. Agora.
Grande besta.
– Voo de regresso? – perguntei-lhe surpreso. O meu plano sempre fora comprar o bilhete de regresso apenas em Istanbul, numa promoção de última hora. Tive sorte mais uma vez, já que também tinha comprado o voo no dia anterior.
– Sim, voo de regresso! Algum problema!?
A sua impertinência revoltava-me. Nenhum problema meu grande energúmeno – sonhei responder-lhe em voz alta.
– Tenho um bilhete de regresso, mas apenas no meu email, tenho de o procurar no telemóvel…
Concordou.
– Não o consigo encontrar – respondi. Preciso de internet e aqui na Turquia não…
Ainda não tinha acabado a frase quando o guarda lança o passaporte para cima da mesa.
Go.
Levantou-se e saiu porta fora.
Aborrecidos naquela prisão, tinham-me escolhido para se entreterem um bom bocado. Amanhã há mais.

Corri para o comboio e certifiquei-me que tinha tudo na mochila. Tinha. Assim que me sentei, finalmente liberto das amarras da burocracia, batem à porta. Baggage control! Depois dos búlgaros, é a vez dos turcos revistarem-me a mochila. Assim que tiraram do seu interior umas meias sujas, desistiram e foram-se embora.

03.15
Restavam-me pouco mais de três horas para dormir. Eventualmente cedi ao cansaço e adormeci. Ainda não tinha entrado na fase do sono profundo quando…

06.20
Batem-me novamente à porta. Faltava meia hora para chegar a Istanbul, era preciso desfazer a cama e entregar os lençóis e a fronha da almofada. É preciso tanto tempo de antecedência? Para piorar o cenário, o comboio atrasar-se-á outra meia hora. Fui escusadamente acordado uma hora antes da chegada ao destino. Neste comboio noturno não há direito a descanso. Mais um prego no caixão do idílico Expresso do Oriente.

07.00
Rompia a alvorada quando avistei os subúrbios de Istanbul, numa explosão de prédios e viadutos, evidências de uma cidade muito maior do que qualquer uma que tenha passado nesta viagem.

07.40, estação de Halkaki
Mais uma desilusão. Roubavam-me um dos momentos altos da viagem e que antecipara com excitação: chegar ao centro de Istanbul de comboio, sair da estação e ver o Bósforo e a Ásia diante mim, o Oriente a um ferry de distância, um final desta viagem em grande. Era suposto chegar à estação central de Sirkeci, mas ela agora só serve comboios urbanos. O Expresso do Bósforo termina antes na estação de Halkali, a 25 quilómetros do centro de Istanbul. 25!

A estação de Halkali, além de ridiculamente longe, não era bem uma esta estação, era um estaleiro, um hediondo corredor de betão sem alma ou vida. Após duas semanas a viajar de comboio, não era este o final que queria para a minha aventura ferroviária.

Para compensar a desfeita, o autocarro até à estação de Sirkeci foi gratuito. O percurso demorou 40 minutos.

08.30, estação de Sirkeci, Istanbul
A estação de Sirkeci recebeu-me com uma magnífica vista para o estreito de Bósforo, à direita, e para o Corno de Ouro, à esquerda. Em frente, as colinas de Galata e Beyoglu. Era aqui que o meu comboio devia terminar. Outrora a estação terminal do Expresso do Oriente, muitos passageiros continuavam viagem, indo de ferry para o lado asiático, para a estação de Haydarpasa (atualmente também ela fechada para obras), para depois seguirem rumo ao Levante, ao Médio Oriente e mais além.

Explorei sem demoras a estação e no seu interior encontrei uma porta com uma placa do lado direito que tinha escrito: “Istanbul Demiryolu Müzesi – Railway Museum”. A porta estava fechada. Espreitei por uma janela e vi que se tratava de um espaço muito pequeno, somente uma sala, com um ar antiquado e pouco apelativo. Parecia que ninguém tinha interesse em visitar aquele museu. Fui apanhado a espreitar pela janela por uma senhora muito baixinha e simpática, que me abriu a porta. A senhora chamava-se Ruhan Çelebi.
– Sou a diretora do museu – disse-me ela – entre, entre.
Pelo que percebi era também a única funcionária do museu.
– Obrigado. Quanto custa a entrada?
– Não é nada, é gratuito.
O pequeno museu tinha uma parafernália de objetos ligados à ferrovia, como placas, sinos, bilhetes antigos e relógios, mas foi o canto dedicado ao Expresso do Oriente que me chamou mais à atenção.
– Era aqui que terminava o Expresso do Oriente – disse-me Ruhan do outro lado da sala.
– Bem sei. E agora os comboios que vêm da Europa terminam tão longe do centro… Que pena – respondi.
– Mudam-se os tempos…
– E este museu, como nasceu?
– De uma iniciativa dos funcionários dos caminhos-de-ferro. Abrimo-lo em 2005. Estou aqui todos os dias. Mas não entra muita gente…
Eu era o único visitante doa dia até aquele momento.
Ruhan estava sentada num cantinho aprazível, rodeada de livros e peças antigas, aquecida por um aquecedor e com um gato gordo à sua frente, a comer de uma tigela em cima da sua secretária.
– Este é o Kaimak, vive aqui comigo mais a Tilda, que há de andar por aí.
A Tilda estava refastelada a dormir em cima de um banco numa réplica de uma carruagem do Expresso do Oriente. Mais tarde perceberei o amor que as pessoas de Istanbul têm pelos gatos. Eles estão por toda a parte na cidade, e são tratados como reis.

Era hora de ir explorar Istanbul. Despedi-me de Ruhan e dos seus gatos e fiz-me à ponte Galata. A viagem de comboio pode ter terminado, mas ainda havia muito por descobrir nesta histórica e cativante cidade.


O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul