Viagem à joia do Cáucaso

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Reportagem publicada na edição de maio de 2019 da revista Volta ao Mundo (número 295).

Fora dos radares do turismo outrora, a Geórgia vive hoje uma realidade diametralmente oposta. Os números dizem tudo: no ano passado, o país foi o quarto destino no mundo que mais cresceu em número de visitantes. Apesar de já ser uma velha conhecida dos amantes de caminhadas na montanha há algumas décadas, a expansão turística da Geórgia deve-se, sobretudo, ao interesse que suscita a sua histórica capital, Tbilisi, uma procura alavancada pelo crescimento dos voos low-cost. Além da capital, esta ex-república soviética é surpreendentemente diversa tendo em conta a sua dimensão, abarcando num pequeno território vilas medievais, florestas praticamente virgens, majestosas montanhas e planícies vinhateiras. Quisemos compreender os motivos da galopante aclamação da Geórgia, por isso fomos à procura de alguns dos encantos desta nação, numa viagem a Tbilisi e a três fascinantes lugares a apenas duas horas da capital.

O renascimento de Tbilisi, uma vez mais

Flanqueado pelo rio Mtkravi e pelo monte Mtatsminda, o núcleo histórico de Tbilisi é o principal motivo de interesse da cidade. O velho centro, mescla de vários estilos e influências, é o resultado da cobiçada situação geográfica que ao longo de 15 séculos favoreceu o cruzamento de culturas e religiões. O resultado é uma babel de igrejas ortodoxas, sinagogas, mesquitas, banhos turcos, átrios persas, balcões tártaros, cúpulas russas e as famosas casas com terraços de madeira suspensos. Tbilisi exala uma desordem oriental, mas sente-se uma dinâmica muito europeia. É uma capital fascinante, que deve ser conhecida ao ritmo da deambulação, pois é nos detalhes que reside a sua magia.

A origem do seu nome é o termo tbili, que significa quente em georgiano, uma referência às fontes sulfúricas da cidade, descobertas em 458, que desde há séculos atraem aqui visitantes. Os banhos mais conhecidos são os de Orbeliani, instalados no interior de um edifício que parece ter sido trasladado diretamente de Isfahan, ornamentado com azulejos de mil cores. A influência islâmica revela-se também no templo contíguo, a mesquita de Jumah, onde sunitas e xiitas rezam lado a lado.

A cidade tem um desafortunado historial de destruição: foi devastada 29 vezes e reconstruída outras tantas. Separando a Europa da Ásia e o cristianismo do islamismo, Tbilisi está cercada de poderosos vizinhos (como a Rússia, a Turquia e o Irão), que sucessivamente invadiram o seu perímetro. Para se defender, os georgianos construíram no alto de uma encosta o castelo de Narikala. Além da importância histórica, esta fortaleza vale uma visita pelo miradouro, de onde se consegue a melhor vista para a capital. O castelo e o miradouro são acessíveis por uma longa escadaria ou por um teleférico, que parte do parque Rike, na margem oriental da cidade. Muito perto de Narikala está ainda o concorrido Jardim Botânico Nacional, refúgio tropical feito de árvores em flor, plantas raras e riachos de água fresca.

É notável a profusão de templos religiosos no centro histórico de Tbilisi. O cristianismo chegou à Geórgia no século IV e, apesar das contínuas invasões e da ocupação soviética, a maioria dos georgianos são intensamente devotos da fé ortodoxa. Basta entrar numa das dezenas de igrejas da cidade para o confirmar: homens com longas barbas brancas, vestidos de preto da cabeça aos pés, curvam-se e benzem-se duas vezes diante de pinturas de santos enegrecidas pelo incenso, enquanto as mulheres, de lenços coloridos que lhes tapam o cabelo, beijam as imagens sob a luz difusa de velas. Os melhores templos para testemunhar a devoção georgiana são a igreja de Sioni, a basílica de Anchiskhati e a igreja Jvaris Mama. Uma das mais bizarras atrações de Tbilisi está adjacente à basílica de Anchiskhati. É a torre inclinada de um antigo teatro de marionetas. Construída com peças de estruturas abandonadas da cidade, esta excêntrica torre está tão desaprumada que é necessário estabilizá-la com uma viga de aço. Curiosos juntam-se aqui às horas certas para assistir à figura de um anjo sair por uma pequena porta no relógio e dar as badaladas.

Em tempos, Tbilisi estendia-se ao longo de um só eixo: a Avenida Rustaveli, nome que presta homenagem ao maior poeta da cidade, Shota Rustaveli. Hoje, esta é a zona mais rica e cosmopolita da capital, ocupada por mansões art nouveau e espaços culturais: livrarias, óperas, teatros, cinemas, galerias de arte e museus. Os mais conhecidos são o Museu Nacional Georgiano, o Museu de Belas-Artes e o Museu de Arte. Próximo deste bairro encontram-se os exemplos maiores (e polémicos, pois foram construídos muito perto do centro histórico) da celebrada arquitetura contemporânea de Tbilisi: a Ponte da Paz, o Palácio Presidencial, a sede do Banco Nacional da Geórgia e a sumptuosa Catedral Sameba. À medida que nos afastamos do elegante núcleo histórico de Tbilisi, surgem os ubíquos blocos de prédios de betão de estilo soviético, construídos sem esmero, um mundo à parte da velha capital e o resultado do crescimento desmesurado da urbe à custa da província (um quarto dos georgianos vivem na Área Metropolitana de Tbilisi).

É tempo de rumar a outras paragens e perscrutar o interior da Geórgia. O país é relativamente pequeno, por isso são vários os passeios que podem ser feitos num só dia a partir da capital. Damos-lhe três sugestões que ficam normalmente fora dos circuitos turísticos e que (por enquanto) ainda estão livres das hordas de turistas: a cidade histórica de Akhaltsikhe, a remota vila de Sighnaghi e o monte Kazbek, no Cáucaso.

Em busca de um reino medieval

O primeiro destino é Akhaltsikhe, na região de Samtskhe-Javakheti, perto da fronteira da Geórgia com a Turquia e a Arménia. Saindo de Tbilisi, propomos primeiro uma paragem na cidade de Borjomi, conhecida pela água mineral, bebida tão prezada que se tornou o produto mais exportado de toda a Geórgia. O centro de Borjomi é o de uma típica cidadezinha termal, com mansões coloridas ao estilo europeu alinhadas ao longo de um rio, hotéis de luxo, spas e restaurantes para todas as carteiras, sobretudo as mais recheadas. A maior atração turística de Borjomi é o teleférico que ascende ao topo do monte sobranceiro à localidade. Do seu alto, obtém-se uma vista soberba para as montanhas do Cáucaso Menor, a cordilheira que rasga o sul da Geórgia.

De Borjomi, Akhaltsikhe fica a uma hora de carro ou de marshrutka, as minivans públicas que ligam as principais localidades da Geórgia. Com mais de oitocentos anos de história, Akhaltsikhe vale pela sua singular fortificação: o castelo de Rabati. Erguida no século IX, esta imponente fortificação foi sendo modificada e ampliada, particularmente pelos impérios otomano e russo, pelo que atualmente a maioria dos edifícios data dos séculos XVII e XIX. Hoje, esta cidadela medieval impecavelmente restaurada, além do castelo, inclui a mesquita de Ahmadiyya, um museu de História, jardins, restaurantes, lojas e um hotel. São precisas algumas horas para admirar com calma todo o conjunto patrimonial, mas é imperativo que reserve algum tempo para o monumento seguinte.

A pouco mais de dez quilómetros de Akhaltsikhe encontra-se o mosteiro de Sapara, um dos mais importantes do sul da Geórgia. Acercar-se deste mosteiro é uma verdadeira viagem no tempo. Acantoado numa ravina, rodeado por densos bosques e isolado do mundo, o mosteiro preserva uma atmosfera da Idade Média. A edificação primitiva existe, pelo menos, desde o século IX e, apesar de algumas alterações levadas a cabo pelos soviéticos, o mosteiro foi poupado durante as persistentes invasões à Geórgia, muito graças à sua localização remota. Hoje, é um sítio que vai ganhando popularidade, não só pela sua soberba posição, como pelos importantes frescos do século XIV no interior da igreja ortodoxa.

Foi aqui que nasceu o vinho

Os georgianos têm especial orgulho naquela que dizem ser uma das suas maiores criações: o vinho. É que os vestígios de vinho mais antigos do mundo foram encontrados neste país, em vasos de cerâmica do sexto milénio a.C. Oito milénios depois, a Geórgia continua a produzir vinho, e de excelência, já que conta com um solo e clima favoráveis à sua exploração. O centro do país vinhateiro é a região de Kakheti, território afortunadamente protegido pelos picos do Cáucaso e pelo vasto planalto azeri.

Sighnaghi é a joia da coroa de Kakheti. A apenas duas horas de Tbilisi e visitável numa tarde, muitos asseguram que esta é a vila mais bonita do país, além de ser considerada a vila certa para degustar tanto o vinho georgiano como a afamada gastronomia nacional. Recentemente renovada e com um ambiente europeu e romântico, Sighnaghi virou-se para o turismo, mas não perdeu o encanto, que o digam as suas ruelas calcetadas, as casas de cores pastel dos séculos XVIII e XIX, as igrejas ortodoxas, o museu arqueológico e os vestígios da fortificação original, levantada para defender o reino dos ataques das tribos do Daguestão e da Pérsia.

A poucos quilómetros da vila está o mais concorrido monumento de Sighnaghi: o mosteiro de Bodbe, que compreende uma igreja do século IV, onde está sepultado Santo Nino, motivo pelo qual o mosteiro atrai peregrinos de todo o país. A panorâmica que se consegue dos terraços ajardinados do mosteiro é arrebatadora: primeiro as planícies infinitas de vinha, depois as aparentemente impenetráveis florestas das terras altas, e ao fundo as sublimes montanhas do Cáucaso, a nossa próxima e última paragem.

Viagem à montanha sagrada do Cáucaso

É impensável visitar a Geórgia e não conhecer o Cáucaso. Apesar de as estradas georgianas serem, no geral, péssimas, a boa notícia é que a cordilheira está a apenas duas horas de Tbilisi. Um dos locais mais icónicos do Cáucaso é o monte Kazbek, na província de Mtskheta-Mtianeti, região rodeada por repúblicas russas semiautónomas conhecidas pela sua instabilidade: a Ossétia do Sul, a Ossétia do Norte, a Inguchétia e a Chechénia.

A estrada que liga Tbilisi ao Kazbek é, por si só, um motivo de interesse. Chamam-lhe a Autoestrada Militar da Geórgia, mas de autoestrada tem pouco – é uma via sinuosa de apenas duas faixas, que serpenteia montanhas através de penhascos vertiginosos. Uma estrada tão intimidante como bela. Anton Tchékhov foi perentório quando a descreveu: «Sobrevivi à Autoestrada Militar da Geórgia (…) não é uma autoestrada, mas poesia.»

É jocosamente apelidada de Autoestrada da Invasão, pois os russos construíram-na após a anexação da Geórgia, em 1801, sob a promessa de facilitar a ligação entre Tbilisi e Vladikavkaz, cidade da Ossétia do Norte, mas usaram-na sobretudo para transporte de soldados e armamento até ao coração da Geórgia, de modo a controlarem toda a região. Hoje, a Autoestrada Militar é o mais importante eixo rodoviário entre a capital e Stepantsminda, cidade que serve de base ao monte Kazbek.

Com 5047 metros de altura, o gigantesco vulcão adormecido é impressionante de se contemplar e é considerado sagrado pelos locais, que lhe chamam Mqinvartsveri, Pico do Glaciar, visto ser encimado por um enorme cone com uma cúpula de neve permanente. Chamam-lhe também A Montanha de Cristo, pois acreditam que o vulcão guardava o berço de Jesus. Outros dizem que guardava a tenda de Abraão e outros asseguram ainda que foi naquele vulcão que Prometeus foi castigado por Zeus por ter roubado o fogo dos deuses oferecendo-o aos mortais. A montanha é de tal forma venerada pelos georgianos que, quando os russos se atreveram a começar a construir ali um teleférico, se gerou uma revolta tal que os populares trataram de o destruir sem demora.

Os visitantes mais afoitos podem sentir de perto o misticismo da montanha, subindo ao Kazbek numa caminhada de, pelo menos, quatro dias. Os menos aventureiros podem optar por um trilho alternativo mais curto (de sensivelmente duas horas), mas apenas até ao topo de um monte vizinho, a 2170 metros, onde se encontra a igreja ortodoxa de Gergeti. A sua localização solitária, envolvida apenas pela vastidão da paisagem, tornou-a um símbolo da Geórgia, um lugar indiscutivelmente fotogénico, de onde se consegue uma vista deslumbrante para o Kazbek, a montanha sagrada do Cáucaso.

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