Ilha do Lombo: a história de um sonho impossível

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Francisco

Numa aldeia nas franjas do rio Zêzere, perto de Tomar, nascia a 25 de outubro de 1918 Francisco Pires Soeiro. Francisco cresceu como filho único (seu pai falecera quanto aquele era ainda criança) ao lado da mãe, Maria Joaquina, e cedo teve de assumir o papel de único homem da casa.

A rotina era a de uma qualquer família de aldeia daquela época: trabalhar no campo, de sol a sol, tirando o que podiam dos terrenos agrícolas que felizmente haviam herdado. O pouco tempo livre, gastavam-no desfrutando a dádiva da natureza a seus pés: banhando-se no Zêzere, àquela altura um fino curso de água fria serpenteando desde a Serra da Estrela.

Com a terceira classe terminada e depois de alguns anos a ajudar a mãe na lavoura, Francisco trabalhou na apanha da azeitona, na indústria da resina e foi ajudante de carpinteiro, ofício que lhe deu o gosto de construir coisas. E muito haveria de construir.

Jovem-adulto, decidiu rumar a Lisboa para, como tantos jovens da sua terra, seguir a via da construção civil, mas nessa altura os jornais anunciavam algo que viria a mudar a sua vida para sempre: começava a construção da Barragem de Castelo de Bode.

Francisco Pires Soeiro, 1946


Um lago, uma ilha, uma cabana

Estávamos em 1946. O governo apostava na energia hidráulica e construía uma gigantesca barragem em Castelo de Bode, a poucos quilómetros da aldeia de Francisco. Quatro anos depois, começava o enchimento da que se tornaria no maior lago artificial do país (depois suplantado pela albufeira de Alqueva).

Terrenos agrícolas, bosques, monumentos, casarios inteiros ficariam submersos pelo imenso lago, incluindo um lugarejo, chamado Lombo, no vale onde Francisco brincara. Salvou-se, no entanto, uma parcela de terreno nesse lugar: um monte promovido a ilha com a subida da água.

Francisco e sua mãe, forçados a vender as propriedades entretanto tomadas pelo lago, repararam naquela ilha e decidiram reinvestir o inesperado rendimento, comprando aquele cabeço até ali semelhante aos demais. Assim nasceu a Ilha do Lombo.

Aplicando a arte que aprendera, Francisco construiu na ilha uma modesta cabana de madeira, comprou um barco a remos de madeira para transportar a clientela e começou-lhes a vender bebidas (mantidas frescas no rio dentro dum saco de serapilheira) e petiscos. O rapaz-carpinteiro tornava-se empreendedor. Tanto que deixou definitivamente Lisboa para se dedicar ao projeto. Depressa a notícia da cabana numa ilha espalhou-se pela região e o negócio prosperou.

A cabana da Ilha do Lombo, na década de 50

 

Nas décadas de 50 e 60, a Ilha do Lombo foi alvo de melhorias: uma cabana ampliada, uma esplanada com telheiro para sombra, um frigorífico a petróleo e um barco a motor com a dupla função de transportar clientes e bombear água do rio (a potência do motor extraía água do rio para a cabana, não só para ser bebida, como para regar a horta, cozinhar e lavar a loiça).

O barco a motor de Francisco foi um dos primeiros a navegar nas águas de Castelo de Bode

Entretanto, a Ilha do Lombo transformava-se num negócio de família: além de Francisco, a sua mulher, Maria da Conceição, e os quatro filhos ajudavam na cabana.

A família de Francisco, finais da década de 60

 

A ideia de Francisco revelou-se um sucesso, impulsionada pela localização paradisíaca da ilha e a travessia idílica de barco. Curiosos de todo o país queriam ver aquela petiscaria no centro de um lago e a família que a habitava, provavelmente a única a viver numa ilha fluvial em todo o país. Mas faltava algo aos clientes: poderem dormir na ilha. Por vezes, grupos acampavam junto à cabana, mas queriam mais — queriam o conforto de um quarto.

Curiosos de todo o país vinham passar o dia à Ilha do Lombo
Anúncio num jornal local
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O homem sonha, a obra nasce?

Francisco sentiu-se entusiasmado com o crescente interesse nas dormidas e ousou sonhar o impossível: construir uma estalagem na ilha.

Para isso, precisou de financiamento. Dirigiu-se ao SNI (Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo), em Lisboa, para concorrer a um Fundo de Turismo, mas para garantir o apoio teve de provar que a sua ideia era realmente diferenciadora. Assim, Francisco criou um livro de visitas, para que na ilha os visitantes opinassem sobre o local. O resultado excedeu as expetativas. As opiniões não deixavam dúvidas: uma estalagem na Ilha do Lombo seria algo único no país.

Sim, a obra ia mesmo nascer.

A maqueta da futura Estalagem da Ilha do Lombo

 

A construção da estalagem iniciou-se em 1970. A obra, projetada pelo arquiteto tomarense Pedro da Mota Lima, foi difícil de passar do papel à realidade, dadas as especificidades do local. Pouco meios mecânicos foram usados na construção e o transporte dos materiais necessários foi dificultado pelas grandes secas, que afastaram o cais de embarque da obra em si verão após verão.

Construção da Estalagem da Ilha do Lombo, início da década de 70

A 15 de junho de 1974, depois de quatro longos anos a ser construída, era inaugurada a Estalagem da Ilha do Lombo. Francisco tinha 55 anos.

Do anonimato ao apogeu: duas décadas notáveis

De estilo rústico e com a preocupação de não ferir a paisagem, a Estalagem da Ilha do Lombo contava com dezassete quartos: doze no rés-do-chão (cada um com um pequeno jardim e acesso direto ao rio) e cinco no primeiro andar (com vista panorâmica para o lago); além de duas piscinas, restaurante, esplanada, bar e campo de ténis.

Vista aérea da Estalagem da Ilha do Lombo concluida

 

Nas duas décadas que se seguiram, a Ilha do Lombo tornou-se num alojamento de referência em Portugal. Aquele remanso pontilhado por pinheiros-bravos e rodeado de águas límpidas e profundas foi refúgio para casais, famílias e viajantes solitários, que ali encontravam um escape paradisíaco longe da cidade. Era ali que cumpriam o sonho de viver numa ilha (quase) privada por uns dias.

Vista dos quartos do piso superior

 

A boa nova da remota e bucólica estalagem rapidamente chamou a atenção de figuras públicas, entre elas destacados políticos, como Ramalho Eanes e Cavaco Silva; personalidades da televisão, como Ana Bola, Júlio Isidro, Camilo de Oliveira e Nicolau Breyner; e artistas da música, como Dulce Pontes ou Roberto Leal. A Ilha do Lombo e o lago que a rodeia foram inclusive cenário de programas de televisão, episódios de telenovelas, anúncios, videoclips e longas-metragens.

José Saramago, que também passou pelo local, descreveu a ilha como “fora das humanas medidas” e lá descobriu “o nirvana”, um sítio de “paz excessiva”.

Folheto promocional da Estalagem da Ilha do Lombo

Francisco, com a ajuda da família, criara um sítio único, um pequeno paraíso, primordial para o desenvolvimento turístico da Albufeira de Castelo de Bode. Havia tornado o seu sonho realidade e ia entregá-lo aos seus.

Francisco Pires Soeiro faleceu no verão de 1993, aos 74 anos, deixando a Estalagem da Ilha do Lombo aos quatro filhos.

Francisco Pires Soeiro, na década de 80

Os últimos anos

Como em tantos outros casos, a gestão conjunta do património herdado revelou-se complicada, até se tornar impossível. Não ajudou o facto do edifício exigir obras de conservação e ser necessário um avultado investimento para reparações. A Estalagem da Ilha do Lombo acabou por ser vendida cinco anos depois da morte de Francisco, em 1998, após decisão conjunta dos filhos.

Nos anos seguintes, sob outra gestão, o projeto passou por grandes dificuldades e foi perdendo estatuto, acabando por encerrar definitivamente em 2002.

Em 2010, o edificado foi adquirido pelo Grupo Tomé Feteira, liderado pelo austríaco Michael Braun, que imaginou ali um ambicioso empreendimento, falando-se num investimento superior a oito milhões de euros. Mas o projeto enfrentou inúmeros obstáculos, nomeadamente no que concerne à licença de construção e a pareceres ambientais, e a estalagem acabou por ser adaptada a habitação privada.

Panorama da Ilha do Lombo (Créditos: João Pereira Fidalgo)

A Ilha do Lombo voltou à ribalta em 2014, mas pelas piores razões. A comunicação social divulgou que teriam sido feitas obras de ampliação ao edifício durante anos sem qualquer licenciamento e que os trabalhos haviam sido embargados diversas vezes pela Câmara Municipal de Tomar. O caso foi inclusive denunciado por entidades ambientalistas por eventuais irregularidades.

Hoje, o antigo alojamento continua de portas fechadas e mantém-se como habitação. No horizonte não se vê a possibilidade de a estalagem voltar a abrir. Os tempos áureos ficaram para trás, mas a ilha perdurará na memória de todos aqueles que a conheceram . Poderá um dia a Estalagem da Ilha do Lombo reerguer-se e perpetuar o sonho impossível de Francisco?


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