Lagodekhi: retiro na floresta da Geórgia

Depois de uma vila medieval, da cidade e da montanha, a minha última etapa na Geórgia foi a floresta, mais propriamente a Reserva Natural de Lagodekhi, no nordeste do país, junto à fronteira com o Azerbaijão e a Chechénia.

Apanhei a marshrutka (minivan) em Tbilisi, numa viagem que durou sensivelmente duas horas e meia, com muitas paragens pelo meio para largar passageiros em cada aldeia. Pelo caminho atravessámos as terras baixas da Geórgia – a zona vinhateira de Kakheti, a região onde pela primeira vez terá sido feito vinho. Queria degustar este vinho ancestral, por isso fiz uma paragem na vila de Sighnaghi, considerada a mais bonita da província.

Após confirmar a beleza da vila e certificar-me da qualidade do vinho, apanhei outra marshrutka rumo a Lagodekhi.

Lagodekhi foi a aldeia mais pequena e remota em que estive na Geórgia. Senti imediatamente a mudança climática, um ar húmido e um calor pegajoso. Estava numa paisagem de tipo diferente, quase tropical, onde as florestas desciam luxuriantes do Cáucaso. Atrás de mim as vinhas e os pastos do interior georgiano; do meu lado direito, a uma dezena de quilómetros, o planalto do Azerbaijão; do meu lado esquerdo, o sumptuoso Cáucaso checheno; e, diante mim, a densa e escura floresta de Lagodekhi. Foi para lá que me dirigi.

A entrada do parque era longe do centro da vila, por isso procurei um táxi, mas não encontrei. Passou por mim um homem e perguntou-me se queria boleia. Claro que sim. Chamava-se Mamuka e conduzia de forma tão agressiva como qualquer georgiano. Perguntou-me se não me importava de primeiro passar na escola do filho para o apanhar. Claro que não.

Era o primeiro dia de escola do ano letivo georgiano. Da escola, um edifício reabilitado por um programa de financiamento americano, saiu um rapaz loiro de sorriso contagiante, com uma pesada caixa de cartão nas mãos. Tinha recebido um portátil no primeiro dia de aulas. “Este ano o governo está a dar um a cada aluno, andam todos contentes”, disse-me Mamuka. Surpreendido, questionei-o se era uma política comum no país. “Sim, é tudo grátis: os livros, o material escolar, o portátil… Este governo que entrou há cinco anos tem feito coisas boas pelos jovens”. O filho de Mamuka jogava no portátil quando chegámos às portas do parque de Lagodekhi.

A Reserva Natural de Lagodekhi é a mais antiga área protegida da Geórgia. Foi estabelecida pelos russos em 1912 (quão luxuriosas estas florestas terão parecido aos primeiros exploradores russos que vinham da monótona estepe ucraniana) e é ocupada sobretudo por florestas de bétulas e bordos. Nela vivem lobos, linces, chacais e ursos, para além de veados-vermelhos, corços, camurças e cabras de montanha. 

O parque tinha cinco trilhos oficiais bem assinalados. Meti-me num deles. Não vi ninguém durante a primeira meia hora. Depois, ouvi vozes. Crianças. Risos. Barulho de água a correr. Segui os sons até chegar a uma ribeira. Junto a ela, estava uma família georgiana com amigos. Deviam ser uns quinze. Montaram uma mesa (imagino que sem permissão) em cima das rochas e banqueteiam-se: costeletas grelhadas, pão, batatas fritas e vinho, muito vinho. Aprendera que neste país o vinho estava em todo o lado e era bebido a todas as horas do dia.

Tentei passar despercebido, mas assim que me viram chamaram-me para me juntar a eles. Turista é coisa pouco vista por aqui e a curiosidade falava mais alto. Sentaram-me e puseram-me comida à frente. “Desculpem, não como carne”. Ninguém entendia. Nenhum deles falava inglês e eu receava que se sentissem ofendidos por estar a rejeitar a sua comida. Contornei a questão: “mas vinho aceito”. Alegria total. Se há coisa de que os georgianos se orgulham é do seu vinho.

Os homens do grupo, já embriagados, vigiavam-me para se certificarem que bebia o copo até à última gota. Mal terminei encheram-me o copo novamente. E novamente. E eu que vinha para fazer uma caminhada. Queriam falar comigo mas a comunicação era impossível. Percebia apenas as palavras Sakartvelo (Geórgia), Europe, Brothers. A vontade de pertencer à União Europeia tem crescido entre os georgianos. Enquanto isso, o meu copo era permanentemente reabastecido. Tive de fugir dali e acabei por adiar a caminhada para o dia seguinte. O grupo tirou-me fotografias, e eu tirei ao grupo. Despedimo-nos e saí do parque.

Dirigi-me ao local ideal para recuperar energias (e a sobriedade): o Duende Hotel. Apesar do nome, é um alojamento de glamping composto por três casinhas de madeira rodeadas de árvores. Estava num pequeno paraíso no bosque. O barulho da floresta fazia-me lembrar a Amazónia.

Os donos, um espanhol e uma californiana, tinham aberto o Duende há apenas três semanas. Alexandro e Nicole, ambos instrutores de crossfit, queriam mudar de vida (e de país). Durante anos procuraram um sítio que preenchesse todos os seus requisitos e onde os seus filhos pudessem crescer mais perto da natureza. Pensaram no Sudoeste Asiático, mas sentiram que ainda não era ali a sua nova casa. Até que foram de férias à Geórgia e se deixaram encantar pelo país. Os terrenos eram baratos, por isso compraram uma fração de floresta perto do Parque de Lagodekhi e decidiram construir ali cabanas de madeira para alugar. Contaram-me com orgulho que todos os sete empregados do Duende são da aldeia vizinha, Khiza, e que a sua ambição do é que o projeto beneficie, direta ou indiretamente, todas as vinte famílias da aldeia.

A noite chegou e Alexandro e Nicole tiveram de regressar a Tbilisi, onde trabalham durante a semana (têm um estúdio de crossfit). Depois de jantar uma carpa grelhada na brasa, fiquei sozinho naquele recôndito pedaço de floresta. A paz absoluta. Nicole contara-me que era comum ouvirem-se os uivos dos chacais à noite, que existia uma alcateia de cerca de vinte indivíduos a poucos quilómetros. Não os cheguei a ouvir. Provavelmente já dormia quando se decidiram finalmente a uivar.

Adormeci embalado pelo silêncio do bosque. Era a despedida perfeita da Geórgia. No dia seguinte regressaria a Portugal, decidido a, um dia, contrariar o adágio de que não se deve voltar a um sítio onde se foi feliz. Queria voltar à Geórgia. Quero voltar à Geórgia.