Monstros da biblioteca

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Três quilómetros separam-me da biblioteca de Vila Franca de Xira. Quando está bom tempo vou até lá de bicicleta, percorrendo a ciclovia que segue junto ao Tejo. Às vezes faço da biblioteca o meu escritório. Sento-me numa das mesas da varanda com vista para a lezíria, ligo o portátil e fico por ali umas horas, até as dores lombares ou a fome me forçarem a levantar.

Vou à sala dos periódicos e leio uma ou outra revista, junto aos velhos que folheiam A Bola e falam demasiado alto entre si, invariavelmente repreendidos pelos sshh’s da exasperada funcionária. Depois espreito as novidades literárias. A biblioteca de Vila Franca de Xira faz um ótimo trabalho nesse aspeto. É frequente sugerir-lhes títulos recentemente lançados e, poucas semanas depois, vê-los expostos na prateleira dos destaques.

Subo ao piso da literatura geral, cirandando pelos corredores habitados de livros por descobrir, seres mágicos, monstros como escreveu Jorge Luís Borges, monstros que podem renascer, voltar à vida quando abrimos as suas páginas. Às vezes não procuro esses monstros, são eles que me encontram, que me chamam. É como se esses monstros intuíssem os meus gostos literários, ansiosos por me contarem as suas histórias.

Pego nalguns monstros e perscruto a contracapa, as badanas e as primeiras linhas, curioso para saber o que cada um tem para me contar. Que coisa incrível é um livro, lembrava Carl Sagan: “um objeto achatado feito de árvores com partes flexíveis nas quais imprimimos uma série de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e estamos dentro da mente de uma pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos”. Talvez um monstro da literatura, que se dirige a nós desde tempos imemoriais, revelando-nos os seus segredos. “O livro é a prova de que os humanos são capazes de fazer magia”, concluía Sagan.

Saio daquela caverna mágica sempre na companhia de dois, três, quatro livros. Andam sempre comigo, quais boias salva-vidas no mar retorcido de cada dia. Nunca se sabe quando precisarei de um livro como saída de emergência: vinte minutos nos transportes públicos, dez minutos no consultório, meia hora na pausa de almoço do trabalho, dois minutos que seja enquanto se espera alguém. Um monstro como companhia, como melhor amigo.

O tempo escapa-se-nos como areia entre os dedos. “Já não há tempo para ler”, ouve-se amiúde. Haver há, mas é cada vez mais preenchido pelo incessantemente manancial de opressivas notificações dos nossos ecrãs — cada vez mais presentes, cada vez mais colados ao nosso corpo, como um polvo agarrado a uma rocha.

É sobretudo à noite que tento fugir à ditadura do ecrã. E que melhor sítio para ler que na cama? Ler na cama pode ser paradisíaco, desde que haja quantidade de luz certa e silêncio que baste. Estamos deitados lado a lado, costas direitas, eu a ler, ela também a ler. No quarto parece só chegar o silêncio. Não precisamos dizer nada um ao outro, cada um no seu mundo, cada um com o seu monstro mágico que os conta uma história. Ficaria ali, ao lado dela, até às tantas da manhã. Aliás, até de manhã. Melhor ainda, até à noite seguinte.

Lendo na cama junto a ela o tempo passa mais devagar. Nunca me arrependerei do tempo  gasto assim. Arrependo-me do tempo gasto em quase tudo o resto. Digo-lhe sempre o mesmo: “dormir: que desperdício de tempo”. Ela revira os olhos: “é tão bom dormir”. Sei que o sono me vencerá em minutos, que adormecerei com a luz do candeeiro acesa, as costas tortas, o marcador do livro fora do sítio. Sei que brevemente desperdiçarei o meu tempo a dormir, mas até lá todos os minutos são preciosos. Só nós os três: eu, ela e o monstro da biblioteca. E assim está bem.

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