Notas de Tbilisi

Há outra cidade na moda para além de Lisboa: Tbilisi. Depois de décadas tumultuosas, a paz voltou à capital da Geórgia e a cidade tem estado nos últimos anos nos radares do turismo. Depois de anos a adiar a viagem, visitei-a finalmente e explorei-a durante quatro dias de setembro. Eis as minhas impressões de Tbilisi, a que juntei algumas curiosidades que fui descobrindo sobre a cidade.

  • Apertado entre rio e montanhas, o centro histórico é o principal motivo de interesse de Tbilisi. O velho centro é um mistura exótica de várias influências, uma babel composta por avenidas com mansões europeias de art nouveau e prédios de estilo soviético, banhos turcos e cúpulas russas, átrios persas e balcões tártaros, igrejas ortodoxas, mesquitas e sinagogas. Nas escarpas junto ao rio, as ruas trepam as encostas dos dois lados, onde se incrustam casas antigas de vários andares com terraços de madeira suspensos. Tbilisi exala uma desordem oriental, ao mesmo tempo que revela uma dinâmica mais europeia. É, por isso, um lugar fascinante, que merece ser visitado ao ritmo da deambulação, já que é nos detalhes que reside a sua magia

 

  • O nome da cidade vem da palavra georgiana tbili, que significa quente, uma referência às fontes sulfúricas, descobertas em 458, localizadas junto ao rio Mtkvari. Os banhos mais conhecidos são os de Orbeliani, um edifício esplendoroso forrado com azulejos coloridos e que parece ter sido transportado diretamente de Isfahan

 

  • Tbilisi foi destruída 29 vezes e reconstruída outras tantas vezes. A lista dos inimigos ao longo da História inclui bizantinos, árabes, persas, tártaros, mongóis, seljuks, otomanos e várias tribos do Cáucaso. Para se tentarem defender, os georgianos construíram no alto da grande escarpa de Tbilisi o castelo de Narikala, de onde se tem a melhor vista para a capital

 

  • O Cristianismo chegou à Geórgia no século IV e, apesar das sucessivas invasões, a maioria dos georgianos continuam devotos da igreja ortodoxa. Basta entrar num dos dezenas de templos da cidade, a Catedral de Sioni por exemplo. No interior rico e oriental da catedral, decorado com pinturas enegrecidas pelo incenso, os fiéis curvam-se e benzem-se duas vezes à frente das imagens de cada santo, por vezes chegando a beijá-las. Mulheres de lenços coloridos que lhes tapam o cabelo e homens com longas barbas brancas vestidos inteiramente de preto cumprem este ritual em cada pequena igreja em que entro, onde reina uma serenidade absoluta. Senti-me muito bem nas igrejas de Tbilisi

 

  • No exterior, o cenário não podia ser mais diferente. As mulheres que percorrem as ruas de Tbilisi têm um expressão independente e orgulhosa, caminham com altivez, de queixo para cima e com passos decididos. A maioria delas são altas e bonitas, de vestes aprumadas, mais elegantes do que imaginava. É na zona de Rustaveli, a grande avenida da cidade, que se concentra a classe alta de Tbilisi. Livrarias, óperas, teatros, cinemas e galerias enchem de vida a cosmopolita Avenida Rustaveli

 

  • Os subúrbios não podiam ser mais diferentes: blocos baratos de betão construídos de qualquer maneira, com altos edifícios de apartamentos sombrios em ruas esburacadas. Um mundo à parte da velha Tbilisi, o resultado do crescimento desmesurado da urbe à custa da província (um quarto dos georgianos vive na capital)

 

O que menos gostei em Tbilisi: a gentrificação que começa a ser visível, a ditadura das grandes lojas de marcas internacionais, o excesso de restaurantes ocidentais, a profusão de espaços de thai massage, os casinos, as mulheres de mau aspeto de mini-saia a fumarem à porta de algumas lojas para atraírem a atenção de potenciais clientes, os grafitos em inglês, a postura antipática de alguns comerciantes.

O que mais gostei em Tbilisi: a mistura entre ocidente e oriente no centro histórico, as colinas cobertas de velhas casas com varandas em madeira, os pequenos jardins a cada esquina, as esplanadas, a comida, o romantismo da cidade à noite, o jazz que se ouve dentro dos bares, a segurança, as livrarias e mercados em segunda mão, os preços acessíveis e a personalidade dos georgianos (têm uma invulgar forma de serem simpáticos e prestáveis sem que sorriam para o demonstrar). A repetir Tbilisi!