O Aquiles de São Pedro

As cidades, vilas e aldeias junto aos aeroportos de todo o mundo são geralmente sítios com pouco interesse. Não é o caso de São Pedro, o lugarejo paredes-meias com o Aeroporto Cesária Évora, na ilha cabo-verdiana de São Vicente.

Mais do que a deslumbrante praia, onde nadei com várias tartarugas-verdes a poucos metros do areal, São Pedro vale uma visita por ser a casa de Aquiles, uma daquelas pessoas que não deixa ninguém indiferente. Aquiles nasceu em Nápoles há 66 anos; os últimos seis passou-os maioritariamente aqui, na pequeníssima São Pedro, após ter-se apaixonado pelo país quando o visitou pela primeira vez. Moreno, seu filho, enamorou-se por uma são-vicentina quando estudava em Coimbra, e foi graças a essa ligação que Aquiles descobriu Cabo Verde. Entretanto, a família construíu o único hotel na aldeia e Aquiles começou a passar aqui a maior parte do tempo.

Foi então que Aquiles se deu conta que a sua grande paixão, o futebol, era partilhada pelas gentes de São Pedro. O italiano notou que as crianças e jovens da aldeia estavam sempre a jogar à bola, mas que lhes faltavam condições — bolas, chuteiras, equipamento e, acima de tudo, organização. Nessa altura Aquiles decidiu criar o São Pedro Fotbal Club e treinar aqueles miúdos de rua.

Aquiles convida-me a assistir a um treino. Quase não fala português, muito menos crioulo, mas safa-se a fazer-se entender aos miúdos. Corrigo: os miúdos é que se safam a entender o italiano macarrónico de Aquiles.

Mas Aquiles reserva-me uma surpresa. Uma surpresa que aposto que as crianças desconhecem: Aquiles é ex-jogador e treinador de futebol. Chegou inclusivamente a jogar na Série C, a terceira divisão italiana. É amigo de várias estrelas do mundo futebolístico, entre eles o conceituado Claudio Ranieri. E é ali, naquele casario perdido na ponta de uma ilha, que Aquiles, antiga glória do futebol, encara os treinos dos jovens com louvável espírito de missão. E é ali que se sente feliz.

Titino, Willie, Helton, Cheo, Alex, Marvin, Marlon, Gabriel, Wesley, Hilton, Girolando, Carlos, Juli… São muitas as crianças e jovens que aproveitam os ensinamentos do experiente allenatore, ou treinador. Muitos deles já são treinados por Aquiles há anos. “Este vai chegar à seleção”. “Olha este, a forma como dá toques na bola”. Orgulhoso, Aquiles conta-me como conseguiu melhores condições para São Pedro. “Agora até luz à noite temos. Foi uma luta”.

Os miúdos treinam todos os dias. Se Aquiles não está naquele dia em São Pedro, vão ao hotel pedir bolas emprestadas e fazem peladinhas no pequeno campo de cimento. A paixão pelo futebol percorre-lhes as veias.

Um dia, um sueco hospedou-se no hotel de Aquiles e, ao conhecer a história dos miúdos de São Pedro, prometeu ao napolitano que os levaria a um torneio internacional na Suécia, a uma das mais importantes provas mundiais para jovens futebolistas. Eufórico, Aquiles contou ao miúdos. A maioria nunca tinha saído sequer de São Vicente. “Imagina a alegria daquela rapaziada”. Só que nem sempre as coisas correm bem.

Aquiles já tratava dos passaportes dos jovens quando deixou de ter notícias do sueco. O sonho desmoronava. O torneio fugia-lhes das mãos, sem qualquer explicação ou justificação do sueco. Arrasado, Aquiles teve de confrontar os seus púpilos com a dura realidade. Para os animar, pegou no pouco orçamento disponível que tinha e levou-os a um torneio numa vila grande da ilha. “Não era o que queria, mesmo assim foi comovente ver a alegria dos miúdos”.

Aquiles continua a trabalhar todos os dias para que o São Pedro cresça. Tanto os jogadores, como as condições materiais. “Precisamos de um campo melhor e maior, com relva seria perfeito”. Enquanto luta pelo sonho, Aquiles vai fazendo o que pode para providenciar uma vida melhor aos jovens, nem que seja por umas horas, tirando-os das ruas e pondo-os a jogar à bola de forma profissional. “O calcio [futebol] deu-me tudo. Com este projeto só tento retribuir o que recebi”, confidencia-me Aquiles em lágrimas.

É contando a sua história que espero retribuir-lhe o facto de se ter aberto comigo e partilhado o seu amor por esta terra e pelas crianças. Também eu saí de São Pedro um pouco mais feliz.


O manifesto de Aquiles: o Eco Hotel

Aquiles quis fazer mais por São Pedro do que criar um clube de futebol e dar treinos, por isso ergueu em plena praça central da aldeia um hotel, o Aquiles Eco Hotel.

Optou por construí-lo propositadamente afastado da praia paradisíaca. É esse o seu manifesto: não queria mais um resort em que os turistas estão afastados da realidade cabo-verdiana, em “bolhas” higienizadas longe da comunidade. Foi por isso que optou por uma localização central para o seu alojamento, rodeado pelas casas das pessoas de São Pedro. O edifício é todo envidraçado, como um aquário, para que o turista veja a aldeia, mas a aldeia também veja o turista.

Essa preocupação é visível também na vontade em ajudar a economia da aldeia. “Não servimos refeições ao almoço porque não queremos roubar a clientela aos restaurantes locais. Queremos que os nossos hóspedes conheçam os outros espaços”, explica-me o filho de Aquiles, Moreno, o arquiteto deste hotel sustentável. “Aqui há conforto, mas não há luxo. Optámos por não ter ar condicionado, televisões ou outras mordomias.

A decoração minimalista espelha a simplicidade que o hotel quer passar aos habitantes locais, que assim não se sentem marginalizados. Muitas vezes são convidados a entrar. É como uma casa comum para toda a aldeia. Se todos os novos projetos turísticos de Cabo Verde seguirem esta filosofia, então o país só terá a ganhar. Um bem haja Aquiles de São Pedro!