O Expresso do Leste: atravessando a Anatólia de comboio

A estação de Haydarpasa era o local perfeito para terminar a minha viagem. Senti um impulso irracional para continuar. Havia qualquer coisa sobre a indolência de viajar que me fazia desejar prosseguir, mas este era o ponto mais distante a que chegaria nesta viagem. Quando regressar à Turquia é de Haydarpasa que espero retomar a minha jornada rumo ao Oriente (as obras estão previstas terminarem ainda em 2018). Para já, era tempo de pôr termo a esta longa jornada de comboio e voltar para casa.”

Foi com estas palavras que fechei o conjunto de crónicas que escrevi sobre a viagem que fiz em janeiro, quando fui de comboio de Lisboa a Istanbul, uma jornada a que chamei O Meu Expresso do Oriente. A estação de Haydarpasa, em Istanbul, foi, durante décadas, a etapa seguinte de muitos dos viajantes que completavam o Expresso do Oriente. Era dali que partiam todos os comboios rumo ao Próximo e ao Médio Oriente.

Eu ambicionara fazer o mesmo: retomar de Haydarpasa a minha viagem apontada a Oriente. A leste da Turquia está o Irão, que seria, pela lógica, o meu próximo destino. Sabemos no entanto que as fronteiras, em vez de se diluírem, erguem-se cada vez mais alto e os comboios de longo-curso ressentem-se nesta região cada vez mais dividida.

O histórico Expresso da Transasiático, que ligava Ankara a Teerão, foi vítima da recente tensão entre os dois países e deixou de funcionar há alguns anos. Para além disso, o visto para entrar no Irão por via terrestre é bastante complicado de se obter, pelo que desistir do Irão (para já) e seguir um itinerário alternativo: ir em direção a Oriente, atravessando todo o planalto da Anatólia, mas, em vez de depois seguir para o Irão, fazer um desvio para norte, em direção ao Cáucaso e visitar a Geórgia.

O itinerário implicaria atravessar toda a parte asiática da Turquia de comboio, primeiro de Istanbul a Ankara; depois da capital a Kars, na antiga Arménia, num comboio de 24 horas chamado Dogu Express (ou Expresso do Leste); e finalmente de Kars a Tbilisi, onde terminaria esta viagem. Neste primeiro texto farei o relato da primeira e segunda etapas, de Istanbul a Kars.

O Expresso do Leste: de Istanbul a Ankara

Tempos houve em que o Expresso do Leste partia de Haydarpasa, a estação que parece uma ilha nas margens do Bósforo. Foi em 1927 que o primeiro Dogu Express cruzou a Anatólia, na altura apenas até à cidade de Kayseri, na região da Capadócia (o troço até Kars só estaria pronto em 1962).

Não foi desta que apanhei um comboio em Haydarpasa. A estação continua fechada e as obras teimam em não terminar. Como sucedeu no Meu Expresso do Oriente, em que tive de terminar a viagem em Halkali em vez da histórica estação de Sirkeci, também desta vez tive de recorrer a uma estação provisória, também ridiculamente distante do centro de Istanbul. Foram precisas duas horas em três linhas de metro diferentes para chegar a Pendik, de onde parte atualmente o Expresso do Leste.

Aquela cidade suburbana não me pareceu ter grandes motivos de interesse, pelo que apanhei de imediato o primeiro comboio para Ankara, uma ligação que se faz em pouco mais de quatro horas, num comboio muito semelhante ao nosso alfa pendular. Na primeira meia hora o comboio seguiu junto ao mar de Mármara, até que este acabou abruptamente. Atravessámos uma zona montanhosa e depois surgiu, arrebatador, o início do grande planalto da Anatólia, uma paisagem pintada de amarelo, apenas pontilhada por alguns ciprestes e aldeias perdidas.

Neste percurso entre as duas mais importantes cidades da Turquia vi um país surpreendentemente desenvolvido, sem pobreza visível que encontraria mais a leste. Com boas infraestruturas, autoestradas, túneis, estradas novas e uma organização geral ordeira, tudo isto visto da janela de um comboio que, por vezes, marchava disparado como uma flecha a 250 km/h.

O Expresso do Leste: de Ankara a Kars

Em Ankara esperava-me o Dogu Express, que fará nada mais nada menos do que 1310 quilómetros até ao outro extremo da Turquia, Kars. Serão 24 horas dentro de um comboio. Por maior que seja o meu fascínio por comboios, nunca me meti em tal empreitada.

O Expresso do Leste goza de um enorme sucesso entre os turcos, que embarcam nesta extensa jornada em busca do exotismo do lado oriental da Turquia e da experiência da viagem de comboio em si. Os bilhetes esgotam semanas antes. Tive de reservá-los com um mês de antecedência para assegurar um lugar.

O Dogu parte todos os dias de Ankara ao final da tarde. A primeira metade da viagem é feita de noite. Não conseguiria ver nada da Capadócia, por exemplo, mas teria todo o dia seguinte para apreciar a paisagem da Anatólia.

Passei a cidade de Kirikkale e vi no horizonte nuvens muito escuras. Uma tempestade de proporções bíblicas aproximava-se. Nunca vira tamanha trovoada. Foi de tal forma diluviada que o comboio foi obrigado a parar, sacudido por uma chuva torrencial, vento ciclónico e uma descarga de granizo que caía como se não houvesse amanhã. A carruagem abanava como gelatina. Da janela vi uma cadência de relâmpagos como nunca testemunhara: praticamente um raio a cada três segundos. Abri a janela e expus a mão à intempérie. Pingos grossos e quentes chicotearam-me a mão com um vigor quase doloroso. Fechei a janela, corri as cortinas, desliguei as luzes e adormeci quando o comboio retomou viagem.

Dogu Express from Gabriel Soeiro Mendes on Vimeo.

Despertei com a luz intensa que invadiu a cabine. Abri a cortina e deslumbrei-me com a vista. O deserto Anatólio: planícies infinitas pintadas de luz dourada, um amarelo muito saturado, como se a estepe tivesse sido coberta de ouro. Não havia sinais de vida: nem aldeias, nem pessoas, nem animais. O céu era de um azul profundo. Lembrava-me o nosso céu de outono, o mais bonito do ano.

Mais à frente, a estepe deu lugar a vales verdejantes, riachos de águas verdes e calmas e montanhas tingidas de vermelho. Onde há água há vida: salgueiros, chorões e ciprestes acompanham o ribeiro que se transforma em rio. Passo por aldeias com minaretes e cúpulas cor de prata, refletindo a luz como faróis. Crianças corriam na direção do comboio e acenavam à sua passagem do cimo de morros pedregosos. Vi um bando de cegonhas-pretas, com bicos e patas cor de tijolo e barrigas brancas. Em Portugal nunca vira nenhuma cegonha-preta. Agora cinco de uma vez. Rejubilo.

Seguimos durante quase uma hora paralelos ao rio. Surpreendi-me ao ver no mapa que é o Eufrates. É aqui que ele nasce, no planalto Anatólio, para depois rumar a sul, juntar-se ao Tigre e desaguar no golfo pérsico. Pelo caminho derrama vida e sustenta civilizações desde o início dos tempos – Mesopotâmia, Babilónia, Império Assírio, Iraque.

Passo pelas cidades de Erzincan e Erzurum: feios blocos de apartamentos, cada um da sua cor. Junto a muitos deles, a poucos metros de distância, centenas de caixas dispostas como uma urbanização, com colmeias, mimetizam os prédios, cada uma com a sua cor. Os minaretes e as cúpulas das mesquitas passam de cinzentas a verdes-esmeralda, outras são douradas. Depois uma área industrial com o nome e a imagem de Erdogan, um centro comercial igual a todos os outros e uma autoestrada com quatro faixas de cada lado, percorridas por carros de marcas japonesas.

A seguir a Erzurum a paisagem voltou a mudar. As montanhas deram lugar à estepe. Todos os pedaços de terra pareciam cultivados. Pastores solitários guardavam os seus rebanhos com centenas de cabeças de gado. O comboio, uma imensa caravana com cerca de 15 carruagens, teve de travar a fundo e parar em nenhures para que um pastor e o seu rebanho atravessassem a linha férrea. Retomámos a viagem sob a luz difusa do crepúsculo, rasgando a estepe até ao destino final.

Chegámos a Kars com quase duas horas de atraso. Após 26 horas dentro de um comboio, chegara aos confins da Anatólia, a território da antiga Arménia, palco de um dos mais controversos acontecimentos do século XX: o genocídio dos arménios. Deixo o comboio, desentorpeço as pernas, ponho a mochila às costas e mergulho na escuridão dos subúrbios de Kars.