O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko

12.45, estação de Bucareste-Norte

Continuo a seguir as pisadas do antigo Expresso do Oriente e, em Bucareste, apanho o comboio para a Bulgária. Serão três horas até à fronteira, num comboio moderno mas minúsculo, com duas carruagens apenas, mais parece um elétrico, do meu lugar até vejo o motorista.

Não parou de nevar o dia todo. O nevão que caiu sobre Bucareste foi o maior que apanhei nesta viagem. Foi de tal ordem que mal consegui ver alguma coisa da cidade, tão forte era o vento e a queda de neve. Bucareste terá de ficar para outro dia.

O que vejo da janela até à fronteira: paisagem siberiana, alguns arbustos secos, pântanos e ribeiros congelados, bandos de pegas-rabudas a escarafunchar por sementes perdidas na neve, cães presos por correntes abrigados da neve em barracas de madeira, ninguém na rua, pouquíssimas casas.

14.45, Giurgiu

Chego à última cidade romena antes de entrar na Bulgária. Dois polícias fronteiriços entram na minha carruagem, pedem-me o passaporte e levam-no para o posto alfandegário no exterior. Demoram uma eternidade. Nota-se que a Roménia e a Bulgária não fazem parte do espaço Schengen.

No passado o Expresso do Oriente parava nesta cidade fluvial e os passageiros apanhavam um barco para atravessar o Danúbio (o rio faz de fronteira entre a Roménia e a Bulgária), para depois seguirem de comboio até Varna, onde apanhavam outro barco até Constantinopla.

Hoje, o comboio atravessa uma ponte muito extensa, feia e ferrugenta. Antigamente chamava-se de Ponte de Amizade, hoje intitula-se Ponte do Danúbio. Nos anos 50, quando foi construída pelos governos comunistas dos dois países, era a segunda maior da Europa e, por incrível que pareça, pois a fronteira é muito comprida, era a única ligação rodoviária e ferroviária entre os estados, situação que só se alterou com a construção de uma nova ligação em 2013.

Tinha grandes expectativas de atravessar o Danúbio e entrar na Bulgária, mas o que vi da janela foi um cenário feio e triste. Tudo era cinzento: a ponte, os guindastes, as centrais eléctricas, as fábricas, os prédios, as chaminés, o próprio Danúbio.

15.35, Ruse

Entro no país mais pobre e com o menor índice de felicidade da União Europeia e constatei-o pela janela do comboio: prédios altos e velhos de estilo soviético, carros abandonados, pessoas com ar tristonho a empurrar ferrugentos carrinhos de compras, árvores secas e medonhas, viadutos e silos grafitados, chaminés fumegantes, fábricas abandonadas e torres de refrigeração horripilantes.

Vejo também quilómetros de campos ocupados por poços de petróleo, daqueles com extratores como os do Texas. A maioria estão parados, provavelmente cansados de tanto procurar pelo ouro negro que nunca apareceu, caso contrário não estaria no país mais pobre da Europa. Ruse parece o sítio mais deprimente do mundo. Apesar disso, leio que já foi a mais rica das cidades búlgaras, a primeira a ter um banco no país inclusive. O que vi foi uma cidade à imagem dos seus poços de petróleo: feia, cinzenta e parada no tempo.

O comboio imobiliza-se e levanta-me para sair, mas de imediato entra a polícia búlgara. PLEASE TAKE A SEAT, exigem. Levam-me novamente o passaporte. Dez minutos depois trazem-mo de volta e deixam-me sair para a estação. É uma estação ao estilo soviético, fria e imponente, demasiado grande para a cidade que serve, pareceu-me.

Tenho 30 minutos para apanhar o comboio para a cidade de Gorna Oryakhovitsa, a duas horas de distância. Aproveito para ir à bilheteira comprar os restantes bilhetes até Istanbul. A ligação que farei, a que tenho vindo a chamar O Meu Expresso do Oriente, é apenas um fantasma do verdadeiro Expresso do Oriente. Hoje, para ligar os dois países, Bulgária e Turquia, a partir de Ruse, é preciso apanhar três comboios: de Ruse a Gorna Oryakhovitsa, de Gorna Oryakhovitsa a Dimitrovgrad e de Dimitrovgrad a Istanbul. Caso seguisse já para Istanbul, demoraria 14 horas, mas decidi parar um dia e meio na antiga capital búlgara, Veliko Tarnovo.

Na estação de Ruse tenho um vislumbre de uma realidade que confirmarei em Veliko: os búlgaros são muito mais simpáticos do que os romenos. O funcionário da estação que me vende os bilhetes para Istanbul é muito atencioso. Fala um excelente inglês e esclarece-me todas as dúvidas, uma raridade nesta viagem pela Europa. Até me imprime todo itinerário. Aproveito a sua amabilidade para lhe perguntar qual a minha linha. Ele não tem essa informação, por isso levanta-se e vem ter comigo, para depois me acompanhar ao hall central da estação e perceber qual é a linha. “Não entenderias o alfabeto cirílico”, explica-me. “Ali está. Linha 4”.

16.35, comboio para Gorna Oryakhovitsa

O comboio para Gorna Oryakhovitsa é daqueles que gosto: tem um corredor lateral com janelas que dão para abrir e compartimentos de seis lugares. Para não variar, vou sozinho no meu. Surpreende-me o seu conforto e limpeza. Até tem tomadas de eletricidade e regulador de temperatura. “Era capaz de dormir aqui”, penso. Infelizmente, como todos os outros comboios que apanhei na Europa do Leste, também este não tem um bar ou um restaurante. Tenho de me contentar com a sandes de queijo que comprei na Roménia.

Aparece o “pica”, pede-me os documentos a sorrir e devolvemos com gentileza. Que diferença para a Roménia.

Cai a noite e lá fora nada, nem uma luz. Surpreendentemente apanho 3G no meu telemóvel. Aproveito para ver a previsão do tempo para o dia seguinte. Temperaturas para Veliko Tarnovo: mínima de -11, máxima de -1. A vantagem de tanto frio é que ao menos sei que não vai chover. Aproveito para trocar mensagens com o dono do hostel onde pernoitarei e combinamos um táxi para me apanhar na estação de Gorna e me levar a Veliko. Prefiro assim, já que teria de esperar uma hora e meia na estação para apanhar um comboio que faria uns míseros quilómetros.

18.30, Gorna Oryakhovitsa

Chego à cidade búlgara de nome impronunciável. Chego ao meio do nada. Vejo-me numa plataforma escura e triste, não percebo nada do que leio, neva intensamente e o frio está no limite do suportável, no entanto, viajar é muitas vezes tristeza e desconforto e chegar a lugares obscuros e horríveis como este, é um dos pequenos prazeres do viajante que anseia por se ver como especial.

O facto de nesta viagem, sobretudo a partir da Hungria, me ter sentido o único turista em cada sítio por onde passava, dava-me uma satisfação inexplicável, como a de um explorador ao descobrir novas terras. Sabia que muitos haviam passado por ali antes de mim, mas naquele dia não. Naquele dia eu era o único a chegar àquele fim do mundo, naquele rigoroso inverno búlgaro e era o único a esperar pelo táxi que me levaria a Veliko.

Lamentara o desaparecimento do Expresso do Oriente várias vezes, mas não naquele momento. Naquele momento agradeci que pelo menos uma coisa no mundo se tenha tornado mais lenta e complicada, que o expresso seja hoje menos expresso e que, por causa disso, poderia descobrir sítios fascinantes como o que iria conhecer: Veliko Tarnovo.

O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul