O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel

– Esse mapa que estás a usar no telemóvel, como se mexe nisso?
Quem mo pergunta, do nada, é o velho que vai sentado ao meu lado no comboio entre Sighisoara e Bucareste. Tem o cabelo ralo e branco e uma pele muito clara com rugas profundas. Os seus olhos são de um verde-claro hipnotizante. Tem um olhar confiante e inabalável, uma presença forte que me cativa imediatamente. O velho chamava-se Alexandru Herlea e foi o meu parceiro de conversa até à capital romena. Naquele momento não imaginava quão ilustre Alexandru era. Naquele momento era apenas o velho que não sabia mexer no mapa do telemóvel. Expliquei-lhe como se usava o mapa, que era preciso primeiro ligar a internet, depois entrar na aplicação e depois pesquisar o destino que queria.
– Ora põe aí Brasov, a cidade em que nasci – pede-me Alexandru.
– Brasov está aqui – mostrei-lhe.
– Incrível, olha a minha rua. Como assim street view? Consigo ver a minha casa aqui!? Obrigado, tive muita sorte em conhecer-te nesta viagem. Isto vai dar-me muito jeito. De onde és?
– Portugal.
– Conheço muito bem. Já fui a Portugal participar em diversas conferências. Lisboa, Estoril, Porto… E viajei por cidades como Vila Real, Bragança, Guimarães. Muito bonito o teu país. O que fazes por aqui?
– Estou a fazer uma viagem de comboio pela Europa com destino a Istanbul. Vou apanhar a Bucareste apanhar o comboio para a Bulgária.
– Quando tempo ficas em Bucareste?
– Apenas umas horas.
– Tão pouco tempo? É pena, mas compreendo, não é de facto uma cidade muito bonita.
– A sua cidade, Brasov, li que era muito bonita.
– Muito mais! Foi a cidade onde nasci, em 1942. Mas vivo em França desde 1972. Saí da Roménia como refugiado da ditadura comunista. Já tenho 75 anos e continuo a viver em França.

Percebi que estava na presença de alguém com uma história fascinante para contar. Deixei a inibição que me restava de lado e perguntei-lhe sobre a sua vida em Brasov. O seu pai, Alexander, professor de direito civil e membro do Partido Nacional dos Camponeses (Partidul Național-Țărănesc), foi preso e condenado a 25 anos de trabalhos forçados pelo regime comunista. A sua mãe, Silvia, era professora de Filosofia e foi também perseguida pela ditadura. Durante a década de 50 a maior parte da elite intelectual romena foi expulsa, presa ou eliminada, e os seus meus pais faziam parte dessa elite. Não é de admirar, portanto, que Alexandru, já adulto, se tenha virado para o espectro político oposto. É um democrata-cristão.

Alexandru tirou o curso superior de Engenharia Mecânica em Brasov, e leccionou nessa área em Bucareste. Casou-se em 1971 e, um ano depois, parte como exilado para França. Nas décadas de 70 e 80, Alexandru prosseguiu a carreira académica. Fico atónito quando descubro o seu notável currículo, que inclui: um doutoramento em Paris (em História da Ciência e Tecnologia), pós-doutoramentos em Princeton e Harvard, professor universitário em Sorbonne e no Michigan, consultor técnico em vários museus, membro de sociedades científicas em diversos países, Presidente da Comissão Internacional para a História da Tecnologia e autor de inúmeros livros editados e de dezenas de artigos científicos. Mas havia mais, tanto mais que não consegui registar tanta informação no momento. Mais tarde pesquisei pelo seu nome na internet e descobri que fora-lhe atribuído, entre outros, o grau de cavaleiro em França, Roménia e Bélgica e o grau de Doutor Honorário na Roménia.

A minha curiosidade por Alexandre era cada vez maior e queria saber mais detalhes sobre ele. É então que me diz, sem nenhuma altivez ou solenidade:
– Fui ministro na Roménia durante alguns anos e fui o principal responsável pela entrada do país na União Europeia.
Não queria acreditar. Atravessava a Transilvânia num velho comboio que ia cheio como uma lata de sardinhas e ao meu lado sentava-se um histórico ex-ministro romeno. Qual a probabilidade de tal acontecer? E se o ex-ministro não tivesse bisbilhotado o meu telemóvel e metido conversa? Iria fazer uma viagem de cinco horas até Bucareste em silêncio, ao lado de uma personalidade romena com tanta coisa para contar.  Acredito que todas as pessoas, famosas ou humildes, têm uma história interessante para contar. Alexandru era a prova dessa crença.
– Fui Ministro da Integração Europeia na Roménia de 1996 a 1999 – continuou Alexandru. Fiz o meu trabalho e nesse ano o país foi aceite como futuro membro na União Europeia
– Ficou a viver na Roménia?
– Não. Em 2000 mudei-me para Bruxelas, onde fui embaixador e chefe da missão romena na União Europeia. Ocupei esse cargo dois anos e depois voltei para França.
A Roménia só viria a entrar na União Europeia em 2007. Quis saber a sua opinião sobre as mudanças no país.
– As coisas melhoraram com a entrada na União Europeia?
– Algumas melhoraram. Pelo menos temos liberdade, e já não nos assassinam na rua como no tempo do Ceausescu, mas a corrupção mantém-se. O país continua nas mãos dos corruptos de sempre. As caras vão mudando, mas a corrupção é a mesma, daí estas manifestações.

Nos últimos dois anos foram várias as manifestações na Roménia, a maioria por causa das polémicas alterações ao Código Penal, feitas secretamente pelo Governo de Sorin Grindeanu no início de 2017, que incluíram a descriminalização de diversos crimes de corrupção. O governo foi imediatamente acusado de promover estas alterações para que os políticos sob investigação de corrupção pudessem escapar a acusações em curso. As manifestações de 2017 ganharam uma dimensão tal,  que foram consideradas as maiores desde a queda do comunismo e de Ceausescu.

Os protestos em larga escala voltaram precisamente na noite anterior àquela em que conheci Alexandru no comboio para Bucareste, ou seja, a 21 de janeiro de 2018. As ruas da capital encheram-se de manifestantes (entre 50 a 100 mil pessoas), numa marcha anticorrupção contra as mais recentes propostas de alteração ao código penal e ao sistema de justiça, exigindo a queda do governo e a marcação de eleições legislativas.
– Veio à Roménia para participar nas manifestações? – perguntei a Alexandru.
– Não. Vim acompanhar alguns alunos meus de doutoramentos em Sibiu e Bucareste. Estou semi-reformado. Dentro de três dias volto para Paris. É lá que prossigo a minha luta pelos refugiados romenos, através da La Maison Roumaine, a mais antiga associação de refugiados romenos em França, a que presido. Tens aqui um cartão com os contactos.
– Muito obrigado – retribui. Tenho de lá passar um dia que vá a Paris.
– Isso não é possível – esclareceu. Não temos uma sede própria, Infelizmente não há dinheiro para isso… Mas se fores a Paris liga-me para nos encontrarmos.
Conversámos mais um pouco, sobretudo sobre Portugal e os portugueses. Alexandru guarda boas memórias de ambos e gostava de regressar. O tempo voou. Ao início da noite chegámos à estação de Bucareste-Norte.
–  Vais para onde? – perguntou Alexandru.
– Para um hostel perto da Piata Romana – retorqui, um pouco envergonhado por admitir que ia para um simples hostel com um nome esquisito que não me recordo.
– A Piata Romana é a caminho da minha casa! Vou de táxi e posso-te deixar perto do teu hotel, o que achas?
As viagens mais recompensadoras são aquelas em que nos pomos nas mãos de pessoas que não conhecemos ou que acabámos de conhecer. Não ia recusar.
– Claro que sim – respondi sem hesitar um segundo.

Ao atravessarmos a estação, expliquei-lhe que precisava de comprar o bilhete de comboio para ir para a Bulgária no dia seguinte. Alexandru não só aceitou esperar que o fizesse, como me ajudou a comprar o bilhete. Depois, dirigimo-nos para a praça de táxis, mas a caminho Alexandru trava-me subitamente. Estávamos na área de restauração da estação.
– Espera. Por acaso não tens fome?
Estava esfomeado, mas depois do convite de Alexandru para ir com ele de táxi, e depois de termos perdido vários minutos a comprar o meu bilhete, não me atrevi a sugerir irmos jantar. Assim sendo, confessei-lhe que sim, que já comia alguma coisa.
– Onde sugeres ir? – questionou-me.
Estávamos à porta do MacDonald’s, por isso olhei à minha volta à procura de outra opção, mas não conhecia mais nenhum daqueles restaurantes. Sem saber bem o que dizer, e depois de admitir que ia dormir num hostel, quis provar que me restava alguma sofisticação.
– A qualquer sítio menos ao MacDonald’s. Gosta de algum dos outros restaurantes?
Alexandru fez uma expressão desapontada, como a de uma criança a quem tiram o brinquedo favorito.
– A sério? Eu já a contar com um big mac
Fiquei estupefacto. Não imaginaria que quisesse ir ao MacDonald’s.
– Não me importo de todo – emendei de imediato.
–  Ainda bem. Vamos lá – respondeu Alexandru com um sorriso nos lábios.

O restaurante estava apinhado e tivemos de partilhar mesa três adolescentes, que deverão ter olhado para nós como avô e neto. Estava muito barulho, não falámos muito e comemos rapidamente. Fomos para a praça de táxis e de imediato apareceram vários carros, cada um da sua cor e do seu estilo.
– Em Bucareste há muitas empresas de táxis – elucidou Alexandru.
– E que este? – perguntei.
– Não gosto dessa empresa, são um bocado manhosos. Vamos antes neste.
Entrámos num táxi branco, a cor das ruas de Bucareste naquela noite de inverno. Nevava intensamente e estava um frio ártico. Em cinco minutos estávamos à porta do meu hostel. Agradeci a Alexandru a boleia. Nessa altura percebi que não me ia despedir dele sem que lhe tivesse pedido para lhe tirar uma fotografia. A verdade é que, absorto na conversa, nem me lembrei de o fazer e não seria agora, dentro de um táxi, que o iria fazer.
– Foi muito bom conhecer-te – disse-me.
– Igualmente. Quando for a Paris digo-lhe alguma coisa. – respondi-lhe, sabendo que dificilmente teria a lata de o fazer.
– Nada disso! Sabe-se lá quando lá vais. Quero saber novidades tuas antes disso. No final da viagem dá-me notícias e diz-me como correu tudo.

Aquele calor humano aqueceu-me a alma antes de sair do táxi e enfrentar as temperaturas negativas de Bucareste. Extasiado por ter tido a oportunidade de conversar durante horas com Alexandru, o velho que estava sentado ao meu lado no comboio e que não sabia usar um mapa no telemóvel, despedi-me com a certeza de que me recordaria daquela história para sempre.

Escrevo-a nesta manhã de agosto e sinto que falhei a Alexandru, porque nunca lhe cheguei a contar como correu a minha viagem até Istanbul. Diz-se que mais vale tarde do que nunca. Vou escrever a Alexandru. E é já.


O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul