Santo Antão: morabeza e natureza

Há um mundo à parte a apenas quatro horas de avião de Lisboa. A ilha cabo-verdiana de Santo Antão é um daqueles destinos que me enche as medidas; dos poucos locais de onde regresso e prometo voltar assim que conseguir. Tem tudo para ser um caso de sucesso do turismo mundial, senão vejamos:  um refúgio paradisíaco, com temperaturas perfeitas, natureza, boa comida, tradições, custos relativamente baixos, segurança e, acima de tudo,  um povo afável. É este último ingrediente que torna Santo Antão especial — a amabilidade e delicadeza das suas gentes, a famosa morabeza.

A chegada a Santo Antão, imperiosamente feita por ferry a partir do Mindelo já que a ilha não tem aeroporto, não deixa adivinhar a beleza verde da ilha, pois o porto, na cidade de Porto Novo, está numa zona desértica. Foi em Porto Novo que decorreu o Seminário Internacional de Turismo Sustentável – Desenvolvimento, Turismo e Sustentabilidade em Destinos Emergentes, o motivo da minha visita a Cabo Verde.

Organizado pela ADPM – Associação de Defesa do Património de Mértola, financiado pelo Ministério do Turismo e Transportes de Cabo Verde, numa ação complementar ao Projecto Raízes, cofinanciado pela União Europeia e do Instituto Camões, o seminário debateu planos de acção para o turismo sustentável em Santo Antão e a qualificação da oferta turística nesta ilha, contando com convidados de vários quadrantes da sociedade, entre eles eu próprio, que falei sobre a importância dos blogues na promoção turística. No final, foi ainda apresentado o novo portal de turismo de Santo Antão, que pode ser visitado aqui.

Mas o melhor veio depois. Nos dias seguintes explorei a ilha num ritmo lento, sorvendo todos os momentos, deliciado com as surpresas que fui descobrindo em Santo Antão, um destino que, não tenho dúvidas, em breve se tornará uma meca para amantes da natureza, e não só.

Dia 1 – Porto Novo

Passei o primeiro dia na “capital”, Porto Novo, caminhando ao longo da  sua aprazível marginal, onde tive o primeiro contacto com a morabeza santantonina. Se quiser testemunhá-la vá diretamente à Aldeia Cultural Nôs Reíz, e procure pela Dona Filomena, uma artesã de extrema simpatia sempre pronta a contar as histórias e tradições da ilha.

Dia 2 – Cova, Xoxo e Ponta do Sol

Neste dia saiu-me a sorte grande: o Jaime, natural da ilha mas muitos anos emigrado na Suíça, e que conhecera durante o seminário, ofereceu-se para me levar a conhecer uma parte do interior de Santo Antão — a morabeza desta gente não parava de me surpreender.

O Jaime guiou-me ao longo da sinuosa estrada calcetada que rasga as montanhas do centro da ilha (é a mais montanhosa de Cabo Verde). Parámos na Cova, uma gigantesca cratera vulcânica ocupada por terrenos agrícolas (e o único sítio onde senti frio em Santo Antão), depois pela zona quase tropical do Xoxo, terminando na vila de Ponta do Sol, no extremo norte do território.

A Ponta do Sol é uma explosão de cor e vida, com arruamentos cuidados, restaurantes à beira-mar e um porto de pesca em constante azáfama. Foi lá que me detive com tempo, a observar o vai e vem dos pescadores a chegarem com a sua apanha e a arranjarem o peixe na água do mar.

Dia 3 – Fontainhas

Ao terceiro dia uma pequena caminhada. O caminho vicinal que liga a Ponta do Sol à Cruzinha é o mais conhecido da ilha e considerado um dos mais bonitos do país. A duração de todo o trilho é de várias horas; fiz apenas o primeiro troço, até à aldeia isolada das Fontainhas, uma caminhada de uma hora ao longo de dramáticas falésias. A localização da aldeia fez-me lembrar o Piódão, a diferença é que aqui não há estradas alcatroadas; muito dificilmente se chega às Fontainhas de carro.

Dias 4, 5 e 6 – Vale do Paúl

O Vale do Paúl é a região mais visitada da ilha. Muito me surpreendeu perceber no seminário que os portugueses representavam qualquer coisa como um em cada dez visitantes de Santo Antão. A grande maioria, quase metade, são franceses. Os restantes são sobretudo holandeses, alemães e belgas.

Coração fértil da ilha, contam-me que se esta região parasse de exportar diariamente alimentos para o restante arquipélago, as outras ilhas ficariam sem produtos frescos dada a crónica escassez de água. No Paúl a paisagem é o oposto da minha imagem pré-estabelecida de Cabo Verde. O vale é luxuriante, com plantações de bananeiras, pés de papaia, fruta-pão, inhame, mandioca, agrião e cana de açúcar. Desta última faz-se o famoso grogue, o melhor e mais puro do país, asseguram-me.

O meu quartel-general é a aldeia de Chã de Padre, no final do vale, onde a estrada não avança mais, quase no cume da grande montanha. É o refúgio perfeito que ansiava. Como habitual, é nas terras mais pequenas que testemunho com maior intensidade a amabilidade das pessoas. Nunca me esquecerei das horas passadas vagueando pelas vielas da aldeia, travando conhecimento com os homens da terra — o Osvaldo, o Vavá, o Danny, o Toni 24 (a alcunha vem do facto de ter 24 dedos, mais um em cada mão e pé; testemunhei-o com os meus próprios olhos!) e o afável Duque, pai de sete filhos, agricultor e dono da mercearia, que me convidou a ver o jogo de Portugal em sua casa.

“Tudo drêt?”. “Estamos juntos!”, diziam-me sempre que passava por eles no regresso das caminhadas. É isto a viagem. A sensação de proximidade apesar da distância. Viver nem que seja por breves momentos uma realidade que não a minha. Ser outro eu. Já me confessara: não esperava este descoberta, este encantamento, em Cabo Verde. Achei-o no Paúl. Obrigado Santo Antão.


Onde dormi

A oferta hoteleira no Paúl é algo escassa. Optei pela CasaMaracujá, um conjunto de seis pequenas casas, num total de 12 quartos, que rodeiam um pátio comum com um espaço de lazer, uma piscina e uma horta. O restaurante do alojamento é a única opção para se comer na aldeia. Felizmente a comida é boa e os preços são ajustados.

Vale a pena acordar cedo para apreciar o nascer do sol na montanha, altura em que a neblina de altitude de dissipa e a vista é de cortar a respiração. Foi daqui que captei a fotografia que inicia este artigo. Parece os Andes mas é em Cabo Verde. Quem diria? Um sítio a voltar.