São Vicente: como se estivesse em casa

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Confesso: eu era uma daquelas pessoas que tinha um certo preconceito em relação a Cabo Verde. Na minha ignorância, o país era pouco mais do que desertos rochosos e praias invadidas por casais portugueses. Era uma opinião construída a partir de ideias sem fundamento, e Cabo Verde provou-me o quão enganado estava. Nos próximos posts vou revelar um outro lado de Cabo Verde, um país que é muito mais do que sol e praia.

Viajei para Cabo Verde para dar uma palestra sobre a importância dos blogues no Seminário Internacional de Turismo Sustentável, a convite da Associação de Defesa do Património de Mértola, na ilha de Santo Antão, mas sobre essa ilha-maravilha escreverei nos próximos textos.

Antes de rumar a Santo Antão, explorei durante por uns dias a ilha de São Vicente, marcada pela sua capital, a cidade do Mindelo, a segunda maior do país. Mindelo é considerada a capital cultural de Cabo Verde. É terra de galerias, museus, cafés, artistas e música, muita música. Cesária Évora vivia ali. O escritor Germano Almeida ainda vive em São Vicente. É, portanto, uma cidade que se afirma cosmopolita e, pelo menos no centro histórico, respira-se essa azáfama. Esta foi a última ilha de Cabo Verde a ser colonizada pelos portugueses. Antes disso foram os ingleses que a usaram como porto de abastecimento para as suas rotas comerciais, facto que contribuiu para o tal cosmopolitismo são-vicentino.

No Mindelo senti-me em casa. Nunca sentira essa sensação em viagem. Foi no Mindelo que me apercebi, para meu grande choque, que nunca havia estado noutro país lusófono. Nenhum. Nem Brasil, nem Angola, nem Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé ou Timor. Foi por isso com especial curiosidade que deambulei pelas tascas, mercearias, lojas e lanchonetes, rodeado de produtos portugueses e a falar em português, apesar de estar em África, a quatro horas de Lisboa. Foi com este sentimento de pertença quase umbilical que explorei a ilha durante três dias. São Vicente merecia mais tempo é certo, mas o meu foco, partilhado pela maioria dos turistas que aterra na ilha, era Santo Antão, por isso reservei a maioria do meu tempo para explorar a “ilha verde” e vi-me apenas com três dias para São Vicente.

 

O que visitei em São Vicente

No Mindelo
– Centro histórico: galerias, museus, tascas, mercados, lota, casas coloniais

 

Praia da Laginha: apesar de encravada entre o porto, a estação de dessalinização, é uma praia de água idílica e areia fina e dourada

Baía das Gatas
A meia hora da capital, esta praia preenche os requisitos do banhista português, com água cálida e transparente e um areal extenso. Para lá chegar pode-se apanhar um táxi, mas recomendo a experiência mais genuína de apanhar um “aluguer” (ou “coletivo”, ou ainda “iace”, uma referência à marca Toyota Hiace), conduzido pelos chamados “iacistas”, que só saem quando as carrinhas se enchem de pessoas e mercadorias, o que pode demorar quase uma hora… A viagem de aluguer para a Baía das Gatas custa 100 escudos (90 cêntimos).

São Pedro
A aldeia junto ao aeroporto. Pela descrição ninguém dá nada por ela, mas foi o sítio que mais gostei de conhecer na ilha. Mais sobre São Pedro num dos próximos textos.

 

ONDE DORMI

Casa Café Mindelo
É um ponto nevrálgico no quotidiano da cidade do Mindelo. Está na mais central das praças do centro histórico, diante a avenida marginal. O alojamento foi criado numa antiga casa colonial recuperada, na qual se procurou preservar o espírito da época, patente nas áreas comuns e na decoração. Dos quartos debruçados sobre a baía vê-se o movimento dos barcos em redor do Porto Antigo, e os finais de tarde brindam-nos com pores do sol inesquecíveis para o Monte do Cara, de onde “se vê o mundo”, como escrevia Germano Almeida. No piso térreo, o Café Mindelo serve os ícones da gastronomia cabo-verdiana, das “bafas” (petiscos) às “catchupas”, e à noite há quase sempre música ao vivo.



2 Comments

  1. Ah, a beleza da Macaronésia. Fiquei com curiosidade de saber um pouco mais sobre a importância dos blogues na questão do Turismo Sustentável.

    Votos de boas viagens (e registos fotográficos) !

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