Mio cicerone, signor Pino

Cicerone: palavra italiana, substantivo masculino, guia que mostra aos forasteiros o que numa localidade ou edifício há de notável


Génova é famosa por ter o maior centro histórico da Europa (felizmente pouco adulterado) e pelas suas centenas de igrejas e capelas, muitas delas quinhentistas. Foi numa delas, na igreja de San Siro (de 1580), que tive a minha primeira impressão da cidade liguriana.

Acabava de sair da histórica libreria Bozzi (a mais antiga livraria de Itália, fundada em 1810 por um judeu francês e visitado por personalidades como Melville e Dickens) quando, mesmo em diante, reparo numa igreja despida de turistas, aliás, completamente vazia, nem sequer com genovenses. Não admira, são demasiadas as igrejas na cidade para o número de visitantes que acolhe. Chamava-se Basílica de San Siro e em qualquer cidade do mundo seria considerada uma maravilha imperdível, a abarrotar com curiosos certamente, mas em Génova era apenas mais uma igreja, sem ninguém, e por isso decidi entrar.

Mal começo a contemplar as dezenas de obra de arte reparo que afinal não estou sozinho. Na minha direção vem um homem, alto e robusto, de longa barba grisalha, cabelo para trás também grisalho, de olheiras pronunciadas e com dois pares de óculos pendurados no pescoço. Imagino que seja algum tipo de funcionário da basílica, até porque tem uma espécie de crachá ao peito, com o nome dele escrito: Pino Ruzzin (mais tarde conta-me que “Pino” é apenas uma alcunha, que o seu nome verdadeiro é Giuseppe).

Fico admirado quando Pino, inesperadamente, mete conversa comigo e começa a fazer de cicerone, mostrando-me a igreja. Ali estão as magníficas estátuas de Taddeo Carlone, acolá as importantíssimas pinturas de Fiasella, Cappellino e Lomellini, lá ao fundo os históricos frescos de Giovanni Battista e aqui, ah aqui, incrível não é, a Capela da Pietà, feita com mármore da melhor qualidade, mármore de Narbonne… Pino faz-me uma autêntica visita guiada de cerca de meia-hora, sem que lhe o tivesse pedido, e questiono-me o seu verdadeiro motivo. Será que é um serviço oficial pago que aceitei inadvertidamente só por lhe ter sorrido? Quererá apenas uma gorjeta? Se for para pagar não quero arriscar nenhuma surpresa, se for apenas boa vontade não quero abusar, por isso decido dar a entender que estou satisfeito com a explicação e pergunto-lhe se é suposto pagar alguma coisa.

Para meu espanto, recusa-se a aceitar qualquer pagamento ou gorjeta. Diz que o faz voluntariamente sem esperar gratificações. Fico curioso e quero saber mais. Conta-me que está semi-reformado (ainda trabalha a meio-gás numa empresa de venda de material naval), que vem a San Siro uma vez por semana e que faz o mesmo noutra igreja nos arredores de Génova. Fá-lo por amor à arte, à História e à cidade. Fá-lo porque gosta de mostrar a riqueza de Génova aos estrangeiros.

Sinto-lhe o orgulho e a emoção quando me explica como esta foi uma das cidades mais importantes do Mediterrânico e como soube preservar as suas relíquias. Sinto-lhe o amor por Génova, a forma apaixonada como descreve as suas particularidades. Ainda agora aqui cheguei e também eu já me deixei apaixonar por Génova. Graças ao meu cicerone, il signor Pino.


O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul