Sul da Geórgia: uma viagem no tempo

Chegara à Geórgia. A fronteira com a Turquia ficara para trás. Entrava agora num país surpreendentemente multiétnico para a sua dimensão. Um país com uma história complexa e sangrenta, que separa a Europa da Ásia, o Cristianismo do Islamismo, rodeado por alguns dos mais poderosos vizinhos do mundo – Rússia, Turquia, Irão – , que sucessivamente invadiram o seu território.

Apesar de séculos de diferentes ocupações (persas, romanas, bizantinas, árabes, mongóis, otomanas, russas…), os georgianos conseguiram manter as suas tradições. As influências dos grandes impérios é notória, mas também o é a forte identidade georgiana, protegida pelas montanhas do Cáucaso como um tesouro, mesmo que o país seja na verdade o produto da união de centenas de pequenas tribos e clãs oriundas das montanhas.

Os árabes chamavam a esta região a Montanha das Línguas, tal a profusão de diferentes tribos, cada uma com o seu idioma. Diz-se que os romanos precisaram da ajuda de 130 tradutores quando chegaram a este território, na altura chamado pelos estrangeiros de Iberia (o nome atual, Geórgia, vem de Gorjestão, designação pelo qual o país era, e continua a ser, chamado pelos iranianos).

Os georgianos têm um dos mais belos países do mundo. Bafejados pela sorte em matéria de clima, solo e recursos naturais, vivem num país privilegiado pela Natureza, muitas vezes comparado à Suíça em termos de beleza paisagística. Era um país que sonhara visitar vezes sem conta.

Chegara à Geórgia. Estava na região de Samtskhe-Javakheti, no sul, junto à fronteira com a Turquia e com a Arménia. A primeira cidade que visitei foi Akhaltsikhe, a capital da província, criada há 800 anos e sucessivamente invadida no passado. Apesar de hoje pertencer à Geórgia e ter uma maioria georgiana, no passado (não muito longínquo), Akhaltsikhe era uma cidade habitada por uma maioria arménia, como aliás quase todo o território junto à fronteira com a Arménia. Atualmente os arménios representam apenas 25% da população de Akhaltsikhe e a tendência é que a percentagem baixe.

Akhaltsikhe é conhecida pelo seu majestoso Castelo de Rabati. Mandado construir no século IX, foi sucessivamente sendo ampliado e modificado, nomeadamente pelos impérios otomano e russo.

O castelo de Rabati foi uma agradável surpresa. Impecavelmente restaurado, explorei-o sob uma céu carregado de nuvens negras e uma intensa trovoada, mas com abertas de luz dourada e um final de tarde daqueles em que o céu se pinta de vermelho, um forte contributo para que tenha guardado tão boas memórias do local. Foi uma ótima introdução à Geórgia.

Na manhã seguinte apanhei um táxi para um dos mosteiros mais importantes do sul da Geórgia: o Mosteiro de Sapara. Fazia então a minha estreia num táxi georgiano. Lera o suficiente para saber que os condutores da Geórgia são displicentes e perigosos, mas nada me preparara para aquela realidade. O taxista, um cinquentão que usava calças de ganga rotas nos joelhos como os adolescentes, conduzia como se guiasse uma ambulância de sirenes ligadas, cortando a curvas a alta velocidade e guinando o carro como um carrinho de choque, tudo isto enquanto ouvia música popular que me soava a Kusturica demasiado alta.

À medida que subíamos a montanhas e passávamos por várias capelinhas (o taxista benzia-se duas vezes de cada vez que passava por uma), a temperatura ia caindo a pique. Entrámos numa floresta escura envolta em nevoeiro. Não se viam aldeias ou quaisquer casas e, de repente, após uma curva feita como se fosse uma reta, surgiu o mosteiro de Sapara, escondido entre o bosque e as nuvens, como se viajássemos no tempo, entrando num reino medieval escondido entre montanhas. Olhei para o painel do carro. Tinha escrito 1-1-1997. Estávamos mesmo a viajar para trás.

Criado no século X, o mosteiro de Sapara foi poupado pelas sucessivas invasões dos inimigos, graças à sua localização remota, mas, já no século XX, os soviéticos descobriram-no e modificaram-no à sua maneira habitual, desprovida de sentido estético. Pelo menos não tocaram nas magníficas paredes do interior da igreja, cobertas de frescos lindíssimos. Na entrada da igreja existe um sinal a indicar que é proibido fotografar o seu interior, mas pedi ao monge que estava na entrada para fazer uma exceção, e este acabou por me deixar tirar fotografias sem flash, talvez por ser o único visitante na altura.

A minha segunda paragem na região de Samtskhe-Javakheti foi a histórica cidade de Borjomi, a uma hora de distância de Akhaltsikhe. Cheguei a Borjomi por marshrutka, nome dado às minivans que são praticamente o único meio de transporte disponível em toda a Geórgia para ir de uma cidade a outra. Abordarei a experiência de viajar em marshrutka noutro texto, mas podem já imaginar que não é a coisa mais confortável do mundo.

Borjomi é conhecida pela sua água mineral, que tem o mesmo nome da cidade, Borjomi, e que é o produto mais exportado de toda a Geórgia, sobretudo para a Rússia e outros países ex-soviéticos.

Confesso que esperava mais de Borjomi. O centro de Borjomi é o de uma típica cidadezinha termal, sem grande alma, com mansões coloridas alinhadas ao longo de um rio, hotéis de luxo com spas e dezenas de restaurantes. A maior atração turística é o teleférico até ao topo do monte que está ao fundo da rua principal. Paguei o bilhete de ida e volta e subi ao monte, de onde se tem uma vista soberba para as montanhas do chamado Cáucaso Menor, a cordilheira que atravessa o sul da Geórgia. Passadas poucas horas de deambulação em Borjomi, decidi apanhar o comboio para Tbilisi.

Era um comboio velho, sujo e barulhento. Marchava aos solavancos enquanto atravessávamos as montanhas do Cáucaso Menor. Era também lento. Dolorosamente lento. Devia seguir, no máximo, a 30 km/h. Uma bicicleta circularia mais rápido. O comboio iria demorar quatro horas a fazer o que uma marshrutka faria em uma hora e meia, mas as vantagens compensaram: o bilhete custou uns módicos 70 cêntimos de euro (!), ia praticamente vazio, a condução não era assustadora e seguia tão lento que consegui apreciar a vista com toda a calma. Sempre me senti feliz num comboio como este. As janelas iam abertas. Sentia o ar fresco da montanha na cara enquanto observava como viviam os georgianos nas aldeias do interior.

Na primeira hora de viagem passei por lugares sujos e pobres. Esperava parar em apeadeiros básicos, mas nem isso. O comboio parou em sítios sem nada, nem sequer um cais de embarque. O cenário era quase medieval, como que um percurso para dentro da história. De repente, o vale verdejante deu lugar à planície agrícola. Entrava no coração da Geórgia, uma imensa área plana entre as duas cordilheiras do Cáucaso. É aqui que a maioria das cidades se encontram. O comboio pôde finalmente acelerar a marcha.

Era de noite quando cheguei a Tbilisi.