Do Tejo

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Gosto de acordar e a primeira tarefa do dia ser passear a minha cadela Mia à beira-rio. Nestas frias manhãs outonais, espectros de neblina flutuam desaustinados sobre a linha de água, logo tornados invisíveis pelo abraço quente do sol renascido – um minúsculo disco vermelho no horizonte. Com esta mudança para as margens do Tejo ganhei pelo menos isso: horizonte. E cada dia fica tão mais rico por isso. 

Gosto de andar de bicicleta ao longo do Tejo. De início, o casario alhandrense de um lado — estaleiros abandonados, armazéns recuperados, casebres de pescadores —, do outro um inusitado renque de palmeiras. Lá atrás, o mouchão de Alhandra e o monstro de cimento da Cimpor. Prossigo entre canaviais perscrutados por alfaiates e garças cinzentas, inopinadamente afugentadas pelo estrondo dos comboios-bala que parecem querer desafiar-me para uma corrida. Termino no cais de Vila Franca, dominado pelo grande cubo da Fábrica das Palavras, outrora silo de uma fábrica de descasque de arroz. Arroz transformado em livros. Uma coisa manteve-se inalterada: o antigo silo continua a guardar alimento de primeira necessidade. 

Gosto de voltar à zona ribeirinha no crepúsculo, quando a tela azul pinta-se de cores florais primeiro laranjas e rosas, depois violetas e lilases —, quando esquadrões de aves vespertinas competem entre si pela mais perfeita geometria desenhada no céu, nuvens de mil dançarinos negros sincronizados. Fim do espetáculo, puxo a trela à Mia para regressar a casa, mas ela detém-me, é uma estaca cravada na terra, dali não sai. De propósito ou não, obriga-me a olhar o rio um pouco mais. Como é bom tê-la por perto para me fazer parar e apreciar o que tenho durante uns minutos mais. Sem ela o meu dia teria mais ecrãs e menos horizonte. Sem ela o dia seria menos dia e mais noite.

Gosto de correr à beira-tejo nos dias de chuva. Nível 9.5, inclinação 0, mini-ventoinha ON. As minhas pernas cansadas não saem do mesmo lugar, os meus olhos incansáveis viajam pelo rio. Acompanham-no enquanto a maré sobe (rio ao contrário), enquanto as margens lamacentas se transformam em remoinhos tresloucados (às vezes matam gente, incautos que não sabem nadar) e enquanto os malabaristas do windsurf dançam às ordens do vento e os veleiros regressam felizes das deambulações que imagino longínquas. Eu e o rio, os dois correndo, ambos sem sair do lugar. Companhia mútua. Gosto do Tejo, até da esteira de corrida do ginásio.

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