Crónicas japonesas: as noites de Tokyo

Chegámos a Tokyo (gosto de chamar as cidades pelo seu nome original, quem não prefere Lisboa em vez de Lisbon e Porto em vez do horrível Oporto? se bem que, sendo verdadeiramente rigoroso, deveria acentuar Tokyo, ficando Tōkyō, “tō” de Este e “kyō” de capital – a capital do Este) abalados pelas nove horas de diferença em relação a Portugal e uma confusão com os voos obrigou-nos a, assim que chegámos, ter de voar para Osaka e de imediato voar novamente para Tokyo, para depois voar novamente para Osaka volvidos dois dias… Confusos? Não vos vou maçar com detalhes aborrecidos sobre planos que saíram furados. O que interessa é que acabámos por chegar a Tokyo ao cair da noite e não à hora de almoço como tinha previsto. A primeira impressão da cidade foi portanto à noite e, na minha opinião, é precisamente essa a melhor altura para conhecermos Tokyo que imaginámos.

Cada vez gosto menos de grandes cidades. Fazendo minhas as palavras do escritor Paul Theroux, numa tradução livre, “não gosto de grandes cidades provavelmente pela mesma razão porque muitas pessoas não gostam de locais selvagens: porque as acho vertiginosas, ameaçadoras, monocromáticas, isoladas, extenuantes e cheias de germes e odores ambíguos. E das multidões, da falta de espaço e de nunca estar totalmente escuro nem silêncio”.

Não vou tão longe como Theroux na sua repulsa pelas grandes cidades, mas reconheço que tendo a evitá-las cada vez mais. Terá sido Tokyo um caso à parte e superado as minhas expectativas?

É à noite que a cidade revela imensas avenidas cheia de coloridos carros que mais parecem de brincar; ruas em que cada prédio tem uma miríade de diferentes luzes néon, de bares de karaoke a espaços de “massagem”, de casas de pachinko (jogos arcade) a cafés que permitem dar festinhas a gatos durante 30 minutos por 15 euros; ruelas com minúsculas izakayas (tascas típicas) a servirem espetadas de todo o tipo de carnes e peixes; pequenos restaurantes familiares onde nos sentamos no chão, onde é impossível comunicarmos em inglês ou decifrar o menu e onde apontamos para os pratos dos outros para pedirmos igual; dos estrambólicos bares de comida de plástico servidos por cosplay girls vestidas de bonecas; de milhares de noodle shops, love hotels e 7-elevens… um autêntico parque de diversões.

Chegar a Tokyo é como viajar para o futuro. É talvez uma visão de como poderão ser todas as cidades um dia. A capital nipónica é um caso de sucesso em vários indicadores: baixa pobreza, organização infalível, 100% de literacia, esperança média de vida elevada, excelentes transportes públicos, boa educação, cortesia exemplar, crime baixíssimo, praticamente zero sem-abrigos.

Num país com uma endémica falta de espaço (quase todas as áreas planas do país foram já conquistadas pela urbanização), Tokyo revela-nos a solução nipónica para resolver o excesso de pessoas numa área tão pequena: a miniaturização de quase tudo. Os carros parecem brinquedos, as casas e as divisões são pequenas, o metro consegue ser claustrofóbico, os restaurantes e as lojas são geralmente apertados. Até os jardins são pequenas miniaturas, com as suas árvores e arbustos exemplarmente arranjadas, como bonsais.

Tokyo é uma cidade imensa, mas onde quase tudo é em pequena escala. Só vendo para crer. Como planeei antes de viajar para o Japão, explorei apenas uma área da cidade, a zona de Harajuku- Shinkuku, o epicentro nocturno da megalópole, onde estão a maioria dos bares e restaurantes. Vale a pena perdermo-nos na confusão que reina nestes bairros. A rua Omoide Yokocho, mais conhecida por “piss alley” (imaginam porquê…), é um vislumbre da Tokyo de antigamente, com tascas porta sim porta sim, muito fotogénicas (a primeira fotografia da galeria foi tirada aqui). Perto dali, a zona de Golden Gai é como que um Bairro Alto nipónico, com ruelas de bares de todos os tipos. Logo ao lado, está Kabuchiko, o “light district” de Tokyo, onde abundam “love hotels” e casas de “massagens”. Os néons são tantos que nos ofuscam os olhos, tanto que a noite de Tóquio quase se transforma em dia.

Feitas as contas, não me arrependi de reservar uns dias para explorar Tokyo e gostei sobretudo das deambulações nocturnas nesta cidade imensa. Mas sabia que o melhor da viagem estava por vir. Ao terceiro dia em Tokyo apanhámos o metro à hora de ponta, apinhado de gente pregada aos ecrãs dos telemóveis, num silêncio sepulcral, e chegámos ao aeroporto para apanhar um voo de menos de uma hora para Kyoto. Tokyo representou uma excelente primeira adaptação ao país, mas o Japão que ansiava só agora iria-se revelar em todo o seu esplendor.