Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo

Viajar não é somente locomoção e exploração, não é apenas conhecer algo novo dia após dia. Viajar também é viver num sítio que passamos a conhecer passados alguns dias. É conhecer todas as ruas de uma vila, é cumprimentar pessoas com quem já nos cruzámos, é comer nos mesmos restaurantes, é entrar nas mesmas lojas e seguir os mesmos caminhos de ontem. Viajar é muitas vezes mais gratificante quando deixa de ser sobre a chegada a um destino, e passa a ser sobre viver num destino. Viajar também é rotina.

Sighisoara foi a minha dose indispensável de rotina no meio de uma longa viagem. Nesta jornada não tinha como objectivo deparar-me diariamente com a novidade, aliás, nem aguentaria esse ritmo. Preciso sempre de um intervalo (ou mais) para restabelecer forças, físicas e sobretudo mentais. Sighisoara foi o meu abrigo por uns dias.

Escolhi Sighisoara, em vez de Brasov ou outra cidade maior, para ser o meu “quartel-general” na Transilvânia por me ter parecido nos guias e nos mapas uma terra ao meu gosto: pequena mas não demasiado minúscula, não muito turística mas não completamente perdida, sem as lojas e restaurantes do costume mas com oferta suficiente para ter por onde escolher, para além de ter um toque medieval e muita história.

Senti-me em casa assim que cheguei. Depois da Hungria soube-me bem perceber muitas das coisas que estavam escritas nas placas, toldos, produtos e menus de restaurantes. Nas ruas via palavras como casa, zona industrial, viaduct, medic, clinica e mercerie. Nos restaurantes termos como legume, carne de porc e vin. Um vinho bom diz-se un vin bun, laranja diz-se portocale, eu é eu, fogo é foc e corpo é corp. A Roménia é uma espécie de ilha latina no Leste, rodeada de povos eslavos e línguas para nós indecifráveis.

Sighisoara tornou-se a minha casa. Já conhecia as (poucas) lojas da cidade, comprava pão na mesma padaria todos os dias, passava pelo mesmo banco, o mesmo talho, o mesmo jardim e o mesmo supermercado. Numa ruela perto das muralhas, o Gusti recebia-me de cauda a abanar e pedia-me festinhas. Às vezes, na rua, cumprimentavam-me com um bom dia: Buna Ziva. Gosto da sensação de já conhecer as ruas e de não sentir a pressão de fotografar os principais monumentos porque já os “despachei” no primeiro dia de visita. Agora podia simplesmente vaguear pela cidadela e fotografar pormenores que nunca notaria nos primeiros dias porque estava vidrado na monumentalidade. Quantos mais dias passamos num local, mais atenção passamos a dar aos detalhes, e com eles vem a descoberta da verdadeira alma desse sítio.

Numa dessas deambulações, entrei no cemitério da cidade (quem vai a um cemitério quando tem apenas uns dias para ver uma cidade?) e passei ali algumas das mais memoráveis horas de toda a minha viagem de comboio entre Lisboa e Istanbul. O cemitério de Sighisoara estende-se por centenas de metros, ao longo de uma bonita floresta de cedros que, naqueles dias, estava coberta de neve, tornando-a na Transilvânia que idealizara. Durante horas não me cruzei com uma alma sequer (pelo menos quero acreditar que não). As únicas pegadas que via na neve eram de animais (gatos, cães ou raposas provavelmente). O silêncio naquele final da tarde era fantasmagórico, interrompido apenas pela algazarra dos bandos de corvos quando a noite caiu. Depois o céu do cemitério-floresta foi invadido por dezenas de morcegos. Estava montado uma cena típica da Transilvânia. Contemplei-a por minutos, mas o facto de estar sozinho, no escuro, entre túmulos, não sei porquê deu-me vontade de voltar à vila e continuar o meu passeio na presença de pessoas e não de morcegos, corvos e campas…

Sighisoara é o berço de Vlad Tepes, filho da casa Dracul (significado de dragão e/ou diabo), rei da província da Valáchia no século XV, e que serviu de inspiração para a personagem que veio a ficar conhecida como Drácula. Pelos vistos, terá sido um rei cruel, mas certamente não beberia sangue nem se transformava em morcego. Aliás, Vlad é uma figura respeitada na região, um vez que defendeu o reino das invasões otomanas. No centro da cidade não faltam alusões à personagem nem bagatelas inspiradas do conde à venda, mas não foi um assunto a que tenha dado muita atenção.

Dei sim atenção a uma atividade que raramente me posso dar ao luxo de fazer: jantar nos mais luxuosos restaurantes de uma cidade. Depois das careiras França, Itália, Áustria e até Hungria, comer fora na Roménia foi um pechincha. Nos mais chiques restaurantes de Sighisoara (como nos hotéis Boulevard, Hilton e Sighisoara) comi como um rei, pagando menos de dez euros por refeição. Em todos eles o serviço foi muito antipático, já ia avisado sobre essa rudeza, mas a qualidade da comida e, sobretudo, o preço, compensaram o sacrifício.

Outra razão por que comi em restaurantes de luxo é porque que não pareceram existir restaurantes “normais”, mais baratos, em Sighisoara. Não sei como é noutras cidades do país, mas em Sighisoara os romenos não gostam, ou não têm meios, de almoçar ou jantar fora. Encontrarei a mesma situação na Bulgária. Nos países mais pobres da Europa comer fora parece ser um luxo que a maioria ainda não pode suportar.

Depois de uns dias retemperadores rumei à estação de comboios para comprar um bilhete que me levasse à Bulgária e depois Istanbul. O Expresso do Oriente é coisa do passado e agora para chegar à cidade do Bósforo é necessário apanhar três comboios, demasiado trabalho até para a funcionária da bilheteira, que recusou o esforço de emitir tantos bilhetes. A sua desculpa foi que o sistema não estava a funcionar.

– Vá até Bucareste e compre lá os bilhetes para os comboios até à Bulgária, ok? Já agora, mas para que é que quer ir à Bulgária!??

À medida que vou avançando para Oriente esta parece ser uma pergunta frequente: por que raio haveria você, turista ocidental, querer viajar para a Roménia, para a Bulgária, para a Turquia?

Entro no meu comboio para Bucareste para retomar as pisadas do antigo Expresso do Oriente. Flocos de neve caem como bocadinhos de algodão a flutuar no ar. No horizonte vejo as montanhas da Transilvânia e anseio pelo desconhecido que está a montante. Dentro de dias chegarei ao coração histórico da Bulgária e visitarei a sua antiga capital, e numa semana chegarei finalmente à antiga Constantinopla, a cidade mais bonita do mundo segundo muitos viajantes. Sonho com estas paragens e pergunto-me: por que raio não quereria alguém viajar pela Roménia, Bulgária e Turquia?


O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul


Fotografias de Sighisoara