Veneza: ainda mais bonita sem maquilhagem

Celebrada ao longo da História por viajantes, escritores e pintores, Veneza é muitas vezes considerada uma das mais deslumbrantes cidades do mundo. Toda a gente o sabe, mas poucos estão preparados para a sua beleza. Passei por lá há dez anos, numa escaldante semana de agosto, durante o meu primeiro interrail. Na altura Veneza já havia sido invadida pelos turistas e essa presença excessiva ficou-me na memória – não consigo maravilhar-me com uma cidade, monumento ou paisagem se estiver rodeado de centenas de pessoas. Naquele dia desejei voltar num dia de inverno e conhecer o outro lado de Veneza.

Esse dia aconteceu este ano. Regressei a Veneza no inverno, a meio de um longa viagem de comboio até Istanbul. Parar lá não estava nos meus planos. Depois de uns dias em Génova, tinha programado seguir diretamente para a Áustria, no entanto, quando me aproximei da localidade de Mestre, reparei que a região estava sob o manto de um intenso nevoeiro e decidi fazer um desvio a Veneza. Imaginei a cidade envolvida naquela bruma e em como deveria estar bonita. Naquele momento apercebi-me que aquela era a minha oportunidade de regressar.

Saí do comboio em Mestre e comprei um bilhete para a estação de Santa Lucia, porta de entrada de Veneza. Durante aqueles minutos entre estações o comboio atravessou um viaduto, voando por cima da ria de águas plácidas cobertas por um espessa camada de nevoeiro. Da janela não avistava embarcações, mas consegui distinguir duas pequenas canoas, com cinco homens cada, remando sincronizados, guiando-se pelas estacas que emergiam da água como marcos luminosos numa estrada. Rapidamente cheguei a Santa Lucia.

A estação de Santa Lucia deve ser a mais bem localizada no mundo: descem-se uns degraus e damos de caras com o Grande Canal e as suas pontes (dizem que há mais pontes por quilómetro quadrado em Veneza do que em qualquer outro sítio do mundo), com o Palazzo Foscari de um lado e o Rialto do outro. Era uma Veneza muito diferente da que tinha visto há dez anos. O nevoeiro de inverno e as ruas vazias davam-lhe um carisma que desconhecia.

Jan Morris visitou a cidade na década de 50 e considerou que o inverno a tornava mágica: “Para ver a Sereníssima sem maquilhagem, experimente levantar-se às três hora de uma madrugada de nevoeiro em fevereiro e observe o despertar relutante de velha senhora (…) Num dia de inverno a cidade consegue ser um local curiosamente simples e acolhedor, transbordante de melancolia, com a Piazza deserta, os canais de água agitada e sombria.”

Não tenho esplanadas cheias, canais invadidos por gôndolas ou um céu azul, mas sinto-me com sorte por ver uma Veneza sem maquilhagem como a que Morris testemunhou há mais de meio século, um sítio que afinal ainda pertence aos venezianos, que seguem a sua vida sem tropeçarem em milhares de visitantes, percorrendo calles, salizzadas e campos com os sacos das compras nas mãos, falando uns com os outros, desaparecendo logo de seguida na neblina. Os canais estão também surpreendentemente calmos. O trânsito que testemunhara antes, um corrupio de vaporettos e motonaves (espécie de autocarros aquáticos), lanchas rápidas e motoscafos (barcos-táxi), barcaças de todo o tipo, e até enormes cruzeiros, quase não existia desta vez. Parecia que Veneza tinha tirado férias de si mesma.

Desço à Praça de São Marcos, tiro algumas fotografias desta Veneza inesperadamente fotogénica e percebo porque Jan Morris ficou tão fascinada pela cidade, de tal forma que lhe dedicou um livro. “Não há certamente no mundo outra cidade que dê uma impressão mais imediata de simetria e unidade ou que pareça tão manifestamente nascida para a grandiosidade”, escreveu. A monumentalidade tem um irresistível efeito sobre nós e deixei-me ficar por ali, em pura contemplação.

A praça está praticamente vazia. Tinha esperança que o nevoeiro levantasse ao final da tarde e que algumas nesgas de sol iluminassem de tons dourados a piazza, mas não terei essa sorte. Terei mais sorte ainda: a noite cai, ligam-se as luzes e o nevoeiro, em vez de recuar, parece invadir a praça e galgar o passeio, obscurecendo os palácios e mergulhando o cais das gôndolas numa penumbra com as cores azuladas do crepúsculo.

Charles Bukowski apelidava o nevoeiro de Veneza como O Rei Nevoeiro: “o rei dos exércitos chegaria a qualquer momento, o Rei Nevoeiro, surgindo ao virar da esquina em todo o seu esplendor de cúmulos (…) o Rei Nevoeiro entrou na piazza, montado no seu corcel, e começou a desenrolar o turbante branco”. Satisfeito com a minha fortuna, aproveitei para fotografar esta invasão do Rei sobre a Sereníssima. Pela primeira vez nesta viagem, usava a máquina fotográfica com verdadeira vontade, com a noção de que assistia a um momento que me ficaria na memória, por isso quis eternizá-la também nestas imagens. Regressei à estação de comboio, convencido que é mesmo verdade: Veneza é provavelmente a mais deslumbrante cidade do mundo, especialmente sem maquilhagem.


O Meu Expresso do Oriente

1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul